Parte III

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1. Os comensais

NA CASA DA RUA DU HELDER, onde em Roma Albert de Morcerf marcara um encontro com o conde de Monte Cristo, eram grandes os preparativos na manhã do dia 21 de maio para honrar a palavra do rapaz.

Albert de Morcerf morava num pavilhão situado no canto de um grande pátio e defronte a um outro prédio, destinado aos criados. Apenas duas janelas desse pavilhão davam para a rua, as demais se abriam, três para o pátio, e duas outras, nos fundos, para o jardim.

Entre o pátio e o jardim, construída com o mau gosto da arquitetura imperial, ficava a residência frívola, vasta, na última moda do conde e da condessa de Morcerf.

Em toda a largura da propriedade, dando para a rua, reinava um muro com vasos de flores espaçados em cima e interrompido no meio por um grande portão gradeado com hastes douradas, que servia para as visitas de cerimônia. Uma portinhola quase colada na cabine do porteiro dava passagem para que os serviçais ou maîtres entrassem ou saíssem a pé.

Adivinhava-se, nessa escolha do pavilhão destinado à moradia de Albert, a delicada precaução de uma mãe que, não querendo se apartar do filho, tinha não obstante compreendido que um rapaz da idade do visconde precisava de liberdade integral. Por outro lado, também era possível constatar, devemos dizê-lo, o inteligente egoísmo do rapaz, arrebatado por essa vida livre e indolente, que é a dos filhos de boa família, e que douravam sua vida como ao passarinho sua gaiola.

Por essas duas janelas que davam para a rua, Albert de Morcerf podia fazer suas explorações no lado de fora. A visão exterior é imprescindível para os jovens, que sempre querem ver o mundo atravessando seu horizonte, ainda que esse horizonte seja o da rua! Além disso, realizada sua exploração e caso ela merecesse um estudo mais aprofundado, Albert de Morcerf podia, para se dedicar às suas buscas, sair por um portãozinho que ficava no lado oposto daquele que indicamos perto da guarita do porteiro, e que merece uma menção especial.

Era um portãozinho que parecia esquecido de todos desde a época em que a casa fora construída, e que julgavam condenado para sempre, tão discreto e empoeirado parecia, mas cuja fechadura e dobradiças regularmente lubrificadas sugeriam um uso misterioso e assíduo. Esse portãozinho disfarçado competia com o outro portão, zombando do porteiro, de cuja vigilância e jurisdição escapava, abrindo-se como a famosa entrada da caverna das Mil e uma noites, como o Sésamo encantado de Ali Babá, mediante algumas palavras cabalísticas ou alguns arranhões convencionados, pronunciadas pelas vozes mais meigas ou operados pelos dedos mais delicados deste mundo.

No fim de uma galeria vasta e calma, com a qual esse portãozinho se comunicava e que servia de vestíbulo, abria-se, à direita, a sala de jantar de Albert, que dava para o pátio, e, à esquerda, sua sala de estar, que dava para o jardim. Arbustos, de trepadeiras que se abriam em leque através das janelas, escondiam do pátio e do jardim o interior desses dois cômodos, os únicos, situados no térreo como o eram, onde teriam podido penetrar os olhares indiscretos.

No andar de cima, esses dois cômodos se repetia, somados a um terceiro, sobre o vestíbulo. Esses três cômodos eram uma sala de visitas, um quarto de dormir e uma alcova.

A única mobília da sala de estar era um divã argelino destinado aos fumantes.

A alcova do primeiro andar desembocava no quarto de dormir e, por uma porta invisível, comunicava-se com a escada. Como vemos, todas as medidas de precaução estavam tomadas.

Acima desse primeiro andar reinava um vasto ateliê, ampliado com a derrubada de paredes e divisórias, pandemônio que o artista exigira ao dândi. Ali se refugiavam e amontoavam todos os sucessivos caprichos de Albert, as trompas de caça, os baixos, as flautas, uma orquestra completa, uma vez que por um instante Albert mostrara não inclinação, mas diletantismo pela música; os cavaletes, as paletas, os pastéis, pois ao diletantismo pela música sucedera a fatuidade da pintura; finalmente, os floretes, as luvas de boxe, os espadins e bengalas de todo tipo; pois, afinal, seguindo as tradições dos rapazes na moda da época a que chegamos, Albert de Morcerf cultivava, com infinitamente mais perseverança do que o fizera com a música e a pintura, essas três artes que completam a educação leonina, isto é, a esgrima, o boxe e o bastão. Ele recebia alternadamente nesse aposento, destinado a todos os exercícios do corpo, Grisier, Cooks e Charles Leboucher.

O Conde de Monte Cristo (1884)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora