Trinta e três - Jax

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Por um segundo eu achei que a carruagem não fosse conseguir entrar no reino de Tão Tão Distante. Achei que o mensageiro de Quentin tivesse mentido, que fosse haver uma exército nos esperando na entrada, que fôssemos morrer ali mesmo.

Mas aparentemente ele estava falando a verdade.

Percebi que o envelope com os convites brilhou ligeiramente quando passamos pela fronteira. Troquei um olhar com Tobias, que estava claramente com as mesmas preocupações que eu. Ele parecia estar segurando a respiração, porque se desmontou todo no banco quando conseguimos entrar em Tão Tão Distante.

- Você também achou que era uma armadilha - disse.

Ele concordou com a cabeça.

- Teria sido uma forma bastante estúpida de morrer e eu faria o favor de te lembrar disso todos os dias no além, Trent.

Eu sorri. Ele não tinha mudado em nada.

Um pouco mais aliviado por termos conseguido entrar, relaxei no banco e olhei a paisagem lá fora. Agora a floresta tinha ficado para trás e o reino se espalhava a minha frente.

Tanta coisa tinha mudado.

Seria injusto dizer que os Augustini tinham feito um trabalho ruim, porque as ruas pareciam limpas e as pessoas que andavam pareciam pelo menos saudáveis. Havia mais casas agora - menores, simples, de madeira - mas que pareciam aconchegantes. Havia fumaça saindo das chaminés e alguns animais andavam pela rua.

Lá em cima, no topo da montanha mais alta de Tão Tão Distante, estava o castelo. As janelas estavam brilhando de diversas cores, havia uma movimentação nos portões. Espiei Tobias. Ele estava puxando a gola da camisa e suando consideravelmente.

- Faz... muito tempo que eu não venho aqui - disse ele, um nó se formando na garganta. Seus olhos estavam meio... molhados. - Eu sei que é estúpido, mas... senti muito falta daqui.

Bati na perna dele com a minha.

- Eu sei.

- Mas o que é mais estúpido ainda - ele continuou. - É que eu gosto das Terras Não-Clamadas. Se ao menos eu pudesse...

E ele apontou para si mesmo como um todo, provavelmente se referindo à sua condição temporária de humano.

- Ei - chamei. Ele levantou os olhos. - Nós vamos dar um jeito nisso, ok?

Ele deu uma fungada e eu suspirei. Levei a mão ao peito. Eu podia sentir meu coração batendo, lento e contínuo. Ainda assim, a maldição...

Tobias me encarou e eu voltei a mão para a minha perna.

Não devia estar pensando na maldição. Primeiro, precisava ir atrás de Alice e de Sebastian.

****

- Convites, por favor - um guarda pediu quando Mustafa chegou aos portões do castelo. Estendi o envelope. O homem enfiou a cabeça dentro da carruagem, olhou para mim e para Tobias, depois acenou para que continuássemos. Então a carruagem voltou a andar e, pouco tempo depois, parou. De forma definitiva, daquela vez.

Olhei para Tobias, que pela primeira vez parecia assustado. Tudo parecia muito bonito enquanto nós estávamos planejando, mas agora que tínhamos chegado, era como se o peso do que estávamos prestes a fazer tivesse finalmente caído sobre as nossas costas.

Respirei fundo e olhei para ele forçando um sorriso.

- Vamos? - perguntei.

Ele abriu um sorrisinho nervoso também.

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