Capítulo 14

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O enterro foi realizado na manhã seguinte no cemitério principal da cidade. Àquela altura já fazia calor, mas o sol ainda brincava de aparecer e se esconder atrás das nuvens. Apesar de ainda estar psicologicamente devastado por conta de todos os acontecimentos do dia anterior, Pablo não conseguiu pregar os olhos, mesmo após já ter cuidado de toda a burocracia para a liberação do corpo e dos preparativos para o velório. Pedro passou a noite grudado nele e, apesar da tristeza ainda dominar o seu semblante, o menino aparentava uma ligeira melhora, talvez por já ter derramado todas as lágrimas que possuía durante a tarde/noite passada. Murilo, atento a tudo, ficou do lado de fora da capelinha, bem embaixo de uma frondosa árvore. Maria Clara ainda estava sob efeito da medicação, bem como Roberto, que estava numa cadeira de rodas na companhia de um enfermeiro. Ambos ainda não tinham esgotado todo o estoque de lágrimas, e os familiares vigiavam-nos de perto, em caso de não aguentarem a emoção e sofrerem algum mal súbito.

Como era esperado, dada a notoriedade dos negócios da família de Juliana na cidade, a capela do cemitério estava lotada. Muitos amigos de Pablo da época do colégio apareceram, amigos estes que ele já não via fisicamente desde quando se mudou para São Paulo para cursar Economia na USP há mais de dez anos. Ainda mais tímido nas palavras, fazia uma cara protocolar de surpresa quando alguém se dirigia até ele perguntando o tradicional "lembra-se de mim?", agradecendo de forma educada e protocolar os pêsames recebidos. E este marasmo só sofreu uma alteração quando percebeu a chegada ao salão de dona Aurora com as filhas Carol e Cristina.

Respirou fundo, bem fundo.

Carol, aquela que parecia ter cumprido a sua missão neste planeta ao tirar a virgindade de Pablo e que já não fazia mais jus ao apelido maldoso de baleia rosada da adolescência, vinha ao lado da mãe. Ela parou assim que o viu ao lado do caixão, mas não chegou perto para lhe dar um abraço; apenas limitou-se a fazer um gesto tão frio com a cabeça que ele sentiu um arrepio na espinha. Melhor assim.

Cristina, a sua musa eterna e o grande amor platônico de toda a sua vida e que ele não via praticamente desde que se formou na universidade, era quem agora estava ali bem à sua frente, linda como nunca, vestindo camisa e calça pretas.

Sentiu um novo arrepio na espinha e não conseguiu frear a súbita aceleração sofrida por seu coração, que ameaçou sair pela boca, mas ele acabou por deixá-la bem fechada para evitar maiores problemas. Como num passe de mágica, todas as pessoas presentes de repente ficaram com os rostos embaçados e a pouca cor que havia no ambiente desapareceu de vez. Seus olhos só conseguiam admirar o quanto ela ainda continuava linda após tantos anos – estonteantemente linda, mesmo com os óculos escuros cobrindo aqueles preciosos olhos azuis, e voltou a imaginar se ela estaria malhando naquela academia do marido próxima à livraria que o Paulão havia mencionado.

– Meus sentimentos, Pablo – ela disse antes de lhe dar um abraço.

De todos os abraços que já havia recebido até então, naquele exato instante ele se deu conta de que ao mesmo tempo em que era o abraço que ele mais ansiava em receber, até por conta de todo o delírio juvenil de uma vida, também era o que mais queria evitar. Entretanto, não evitou. A impotência diante da musa da sua existência simplesmente deixou-o petrificado, e ele apenas recebeu-a em seus braços aceitando a derrota – e que não era uma derrota qualquer, mas sim uma derrota em dose dupla. A mulher dos seus sonhos, depois de tanto tempo, só veio procurá-lo porque a mãe do seu filho, que era prima dela, faleceu. E aquele abraço fraternal e carinhoso, com o qual ele havia sonhado por intermináveis dias e noites, só se materializou como uma espécie de prêmio de consolação que todos que estivessem na mesma situação iriam receber de qualquer jeito.

Sentiu-se então como quem acabara de perder o pênalti decisivo no Maracanã lotado e quis chorar, mas fechou com força os olhos para conter as lágrimas. Quis correr dessa mulher que nutria por ele um amor inversamente proporcional ao que ele tinha certeza que sentia por ela, mas aquele abraço por tanto tempo sonhado e desejado lhe tirou todas as forças que havia em seu corpo. Quis gritar para aliviar a dor da solidão que havia acumulado em seu peito, mas sentir aquela respiração tranquila e ritmada ao pé do seu ouvido lhe deixou em transe. Sentiu-se vazio. Sentiu-se só. Sentiu que havia virado pó e então não conseguiu sentir mais nada.

Se esquecer seu coração lá em casa, não o devolverei!Onde as histórias ganham vida. Descobre agora