11 - A Garota do Pesadelo - Parte Final

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Ainda em sussurro ansioso:
- O que a gente vai fazer?
- Anne, eu acho que tenho uma ideia.
- Ai, acho que eu também. Não vai ser dessa vez que você vai ser o herói.
- Fala logo a sua ideia. Fala.
- Primeiro que você não manda em mim - Róru fica claramente irritado com a enrolação de Anne - e segundo que a minha ideia é essa: Sonia! - A finlandesa grita pela companheira.
- Era essa ideia que tive.
- Ah tá. Sonia!
- Sonia!
- Sonia!

O plano parece não estar adiantando muito. As feras continuam vindo famintas com os dentes pontiagudos à mostra.

- A gente vai morrer, Róru. Sonia!
- Eu não queria morrer assim. - Ele lamenta.
- Mas talvez vai. Vá aceitando, já.

Então um rosnado mais alto que os outros faz com que os lorksels parem de andar. Gemem, choramingam com medo e saem correndo. Ela está aqui. Sonia no corpo peludo, com garras e dentição assassina. Isso tudo acrescido com uma juba que varia do cinza ao prata. Contudo, ela não está sozinha. Uma jovem nua de longos cabelos loiros vem escondida atrás da fera. Ao lado dela, Ruma. Viva e sem ferimentos.

- É a garota do pesadelo - Anne constata impressionada. - E é Ruma. Viva.
- Viva - Róru com uma pequena felicidade recuperada.

Sonia solta um rosnado como quem quer falar concordando.

- Isso mesmo, Sonia. Mas já pode voltar a ser gente, tá? Já deu por hoje.

Anne tenta ser a engraçada de sempre mas só consegue olhar para a menina dos pesadelos coletivos e perceber o quão recuada e na esquiva de olhares ela está. A finlandesa só consegue pensar nessas duas coisas estranhas. A menina e Ruma de pescoço inteiro.

***

ANOS ATRÁS

- Por aqui. - Uma médica bem magra de cabelo castanho curto com um ralo rabo-de-cavalo indica com uma das mãos o caminho para Alice. Ela, por sua vez, entra em um quarto, fazendo uso de seus passos mais pesados, espaçados e melancólicos.
- Lu. - Ela anuncia a sua chegada ao lamentar o nome do irmão, que ocupa a cama de hospital.
- É, Lice. O pai...
- Ele não pode fazer isso! Eu vou colocá-lo na cadeia. - Ela o interrompe e marcha pelo quarto nervosa ao dizer essas palavras mais para si mesma do que para o irmão.
- Lice, não. Espera.
- Espera o que? - Alice cruza os braços e estoura. - Ele já te perseguiu, já te ameaçou e agora vai te agredir? Nunca! Gente tirana a gente enfrenta.
- Lice! Me escuta. - Ela finalmente se esforça para parar de andar agitada. - Foram uns caras que fizeram isso. - Ela revira os olhos, faz um muxoxo e expressa nojo no olhar. - A questão é que o pai viu tudo.
- E ele não fez nada. Foi isso, né? - Alice conclui triste após alguns segundos. Ela segura a mão do irmão com muito carinho.
- É... - Ele deixa escapar uma lágrima. Aquela tão escondida. Alice a enxuga com o dedão e desce para acariciar o rosto todo.
- Eu creio, Lu... Que um dia toda tirania vai ter fim. Toda a crueldade. E sabe o que mais? Toda apatia também.
- Eu também acredito nisso. Bem, eu consigo acreditar porque você sempre me fez acreditar.
- Bem, uso meus talentos de atriz para alguma coisa, né?

Os dois riem tímidos constrangidos pelo choro que se espreita. Risos tímidos chegam a doer.

***
O efeito da luz emitida por Alice passa. Ao abrir os olhos, Lura dá de cara com aquela das Sete parada de pé diante dela com um rosto nada amigável.
- Sua mentirosa! - Alice exclama apontando para a líder de todos os habitantes do Sul.
- O que? - Lura se levanta com um cinismo calmo ao bater a terra das mãos.
- Quem é você, de verdade? Por que fez isso com Maika? - Alice interroga em uma angústia crescente.
- Eu sou a líder. Faço o que eu achar certo.
- O que? - A brasileira se aproxima raivosa.
- Sim. Faço o que eu quero. Como isso daqui.  - Lura joga todo o frasco de sonífero líquido no rosto da atriz.
- Não! - Alice tenta gritar, mas só um choro fraco sai. A substância já faz efeito.

Ela termina caindo ao lado de Maika. Lura observa as duas e pensa no próximo passo.

***
É entardecer do dia chuvoso. No momento, só uma garoa fina.
A nave com Anne, Sonia, a garota do pesadelo, Ruma e Róru chega.
Baixando na clareira, é recebida por todo o povo já desperto. Olívia e Micaela se aproximam, prourando Alice com o olhar e perguntas sobre o seu paradeiro aos que estão por perto.
Do veículo saem os seus passageiros. Sonia já se encontra em sua forma humana, a garota loira já está vestida por uma manta branca e ninguém percebe algo de diferente em Ruma, pois ninguém sabe que morreu e assim vai continuar. Foi decidido entre ela e Róru. O povo está curioso com a nova menina. Os olhares indagam. Sonia a protege com o braço ao redor dos ombros. Anne gesticula como que se dissesse que, sim, a garota é mais um fato bizarro, mas que temos aceitá-lo com normalidade.
Ao mesmo tempo, Ruth se encontra silenciosa em sua cabana, massageando sua têmpora. Decide sair após algum tempo. Ela sobe a colina até a clareira enquanto o povo já desce cercando os passageiros. O seu olhar encontra Anne, Sonia e a moça do pesadelo. Ruth sente o gelo em seu estômago e quer correr, mas não consegue.
- Mãe? - A garota dispara com andar rápido e passa pela multidão. Ao redor, todos ficam sem entender.
- "Mãe?" - Olívia pergunta para Micaela. - A filha dela tá morta. - A sua face ganha espanto. - Ah, não!
Quando a menina alcança Ruth, algo que ninguém espera acontece: a mão da jovem vai contra o rosto da mãe.

***

Cheiro de metal. Alice abre os olhos. Ela vê amarras nos braços e pernas dos quais tenta se livrar. Está nua. Percebe tal fato ao olhar para as quatro paredes cobertas de longos espelhos. Só uma luminária amarelada lhe faz companhia.
- Bem vinda à reprogramação. - Uma voz masculina e desgastada pelos anos anuncia.

Pânico. Alice sente pânico enquanto uma grande câmara desce sobre seu corpo e lhe cobre da fumaça que a envolve até formar um casulo em que nenhum corpo se vê do lado de fora. Só o branco, o branco da fumaça.

***

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now