11 - A Garota do Pesadelo - Parte 2

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- Que droga, hein! Tô ficando bem doidona, toda afetada. - Anne se manifesta quanto ao que acabou de ouvir Róru contar. Ela se levanta e passa palma contra palma, na tentativa de limpar as mãos da terra úmido. Termina esfregando-as nas calças.
- No momento, tente não enlouquecer. - O rapaz também se ergue. Ignora a lama nas mãos.
- Vamos atrás das duas. Sônia e Ruma. - A finlandesa agita a sua linguagem corporal.
- Anne, você... - Róru tenta achar as melhores palavras enquanto os seus olhos fogem dos de Anne.
- Eu ferrei a coitada da sua amiga. Eu sei. Por isso, eu tenho que consertar isso. E eu não posso, não posso deixar a Sônia acordar do transe animal dela e achar que é a única culpada. A culpa é horrível. Sei do que tô falando, monge alienígena. - Ela encerra o seu discurso incisivo à sua maneira verborrágica com uma referência ao fato de Róru ter cantado no rio na cerimônia em honra aos mortos no terremoto e no bombardeio no acampamento dos Destruidores.
- Ahn? - Róru ainda se recupera da enxurrada de palavras de Anne. - De qualquer forma, é perigoso. Mal conhecemos a área.
- É mato. Mato é mato. Não é? Mato tem bichos. É verdade. Mato tem nativos, às vezes. É verdade. Tem nativos aqui? E bichos?
- Nativos como vocês chamam no seu ocidente, não. Bichos, provavelmente.
- Droga. A gente tem que arrumar um jeito de se defender, então. Não trouxe umas pistolas com você?
- Ah, sim. Mas eu não sou um bom atirador. Fico mais com a coisa diplomática dos Destruidores.
- Que bosta, hein. Se pelo menos tivesse um computador, uma tecnologia para eu influenciar... - Róru reage com uma expressão que fica entre a perplexidade e o esclarecimento.
- Ai, eu sei que eu ainda estou em treinamento e posso me atrapalhar, tipo que nem hoje e tal...
- Não! A ideia é muito boa. As pistolas que eu trouxe possuem uma interface. - Anne percebe que o rosto de Róru é cara de entendimento mesmo e não de confusão.
- Então, traga todas as suas pistolas para mim, cherife. - Anne diz isso imitando um cowboy no Velho Oeste. Até chega a fazer uma arminha com dois dedos e fecha um dos olhos para imaginar uma mira na testa do rapaz.
- ...Ok. - Róru se vai silencioso. Longe do olhar daquele homem, Anne deixa a pose de comediante se esvair e deixa o medo vir à tona nos seus olhos enquanto observa toda aquela mata estrangeira - e bota estrangeira nisso!

***

HORAS ANTES

Lura está em sua cabana, que possui maior tamanho e objetos em si do que as outras. Isso se deve à liderança. Ah, a liderança!
Maika adentra com passos nervosos e com a tentativa de esconder seu assombro no rosto.
- Obrigado por ter vindo. - Lura manipula um frasco em suas mãos. Ele contém um líquido azul bem claro, quase transparente. O cheiro é levemente enjoativo.
- Cla-claro. Do que precisa, Monte? - Maika ainda tenta conter o seu nervosismo.
- Eu preciso que você pare de querer me atrapalhar. - A líder responde ao se virar e se lançar contra o rosto de sua auxiliar com um tecido embebido daquela coisa azul. Antes de desfalecer em seus braços, Maika estampa perplexidade no olhar.

Uma luz branca se expande e esbranquece o mundo.

AGORA

Alice chega à cabana de Lura após caminhar indo e vindo pelo acampamento atrás de respostas e constatações de que as coisas possam estar bem. Ao abrir a cortina com algumas contas de sementes brancas e roliças, ela tem à sua frente: líder e auxiliar caídas lado a lado. Contudo Alice consegue perceber outra coisa. Há um resquício de emoção amarga no ar. Ela pode até mesmo sentir no paladar. É a primeira vez que a sua habilidade se manifesta dessa forma: na língua. É mágico, ela sente. Essa sensação a leva até o frasco com a bebida azulada enjoativa na mesa central daquela tenda. Ao perceber algum mal ali, o seu coração a manda pular a vista até a mão enfraquecida de Lura: um tecido de branco sujo ligeiramente manchado de azul. Ela sente chegar até o seu olfato a náusea daquela substância.
- Lura! - Ela exclama em um sussurro decepcionado quando vê o rosto de Maika com alguns respingos azuis ao redor da bochecha. Alice cai de joelhos.

ANOS ATRÁS

De óculos, Alice destaca partes importantes de um roteiro com um marca-texto. Ela anda descalça na sala de seu apartamento. O telefone toca. Ela demora alguns segundos para desligar atenção do texto e colocá-lo na mesa. O telefone é atendido. O clássico "alô". Um incômodo desponta nos olhos. Um "meu Deus!" sussurrado para si mesma. Um "tá bom" e um "já vou". Um "tchau" quase imperceptível. Bem desleixado. Alice cai de joelhos.

***

- Quanto mais eu ando por essas florestas desse mundo, mais eu percebo o quanto elas têm de diferente das da Terra. - Anne tagarela ao pegar uma florzinha de pétalas azuis-clara gordinhas, com pingos rosas. Ela violentamente arranca a coitadinha do chão. - Róru responde com um riso breve, contido mas sincero.
- Eu te faço rir, né? - Anne indaga quase que como criança empolgada.
- Sim. A todos nós.
- Só demoro pra me entregar. Não é esse seu elogio que vai me conquistar, não. - Dessa vez, o homem de barba longa e aparência bem viril, solta um riso mais largo e sem vergonha.
- E ele tá se soltando, gente.

Os dois carregam armas nas mãos. Marcham observando ao redor enquanto conversam. Tudo parece calmo. Conversa leve e risadinhas até que um rosnado é ouvido e os dois param de andar, assim, de súbito. Procuram ansiosos o animal para descobrir se ele pode causar algum mal. O mato é alto e a mata fechada.
- Anne. - Em um sussurro.
- Oi. - Em um sussurro, só que um pouco mais bravo.
- Creio que esse rosnado é típico de um lorksel.
- Então, é a bendita da Sonia que tá aqui, né?
- Ela... Ou o bando dela. - Róru acrescenta ao ouvirem mais rosnados.
- Ferrou. - Anne conclui desanimada ao ver dois da esquerda e mais três lorksels na direita, famintos e selvagens.

***

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now