Céu Limpo

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A nuvem negra que parecia estar acompanhando Sara onde quer que ela fosse pelos últimos cinco ou seis anos começou a dissipar no finalzinho do ano, mais ou menos entre o momento em que ela apresentou o trabalho de conclusão de curso e as malas para voltar para sua cidade natal começaram a ser feitas.

Foram quase cinco anos em um estado completamente diferente – quase cinco anos difíceis, de salário apertado e ligações à longa distância, cinco anos de ser tachada de egoísta por se colocar à frente, mesmo que antes... nunca tivesse sido sobre apenas ela mesma e okay, talvez ela tenha tomado decisões com base em um ou dois argumentos egoístas, mas Sara vinha tentando, e tentando muito, e agora... ela tinha conseguido.

E além do mais, agora, a nuvem negra estava sumindo.

Quando Sara e Patrícia – sua melhor amiga no mundo todo, com quem ela vinha compartilhando os últimos anos (e francamente a vida toda) – colocaram o anúncio de "família vende tudo" e os móveis de casa começaram a serem levados um por um, ela ainda se sentia... bem. E quando até as camas se foram, e eram só as duas naquele apartamento que agora parecia gigante, tendo que dividir um colchão king inflável pelas noites seguintes até que chegasse o dia de suas passagens da rodoviária, Sara ainda estava bem.

E quando Pati caiu no choro no meio da noite, porque tinha acabado, e elas haviam conseguido, e era hora de ir pra casa, Sara foi quem sorriu para a amiga no escuro, enxugou suas lágrimas, chegou mais perto e a abraçou, sentindo-a soluçar contra seu peito. É claro que escorreram umas lágrimas também, e para conseguir dormir, elas tiveram que colocar uns episódios de Girlboss, mas... tudo estava bem.

Elas precisavam pegar dois ônibus para ir para casa. Ou um avião e um ônibus, mas com a quantidade de bagagem que elas tinham, ficava mais barato enfrentar as 10 horas de estrada. Aos 22 anos de idade, Sara ainda tinha energia suficiente para encarar uma viagem dessas numa boa e entre gastar os dados assistindo Netflix e tirar longos cochilos, elas finalmente desembarcaram em Cabo Frio.

A rodoviária era perto o suficiente da água para dar aquela sensação imediata de que elas estavam no litoral. Em São Paulo, na universidade em que estudaram, para chegar à praia mais próxima, eram necessárias pelo menos 3 horas descendo a serra, e sinceramente essa era uma das piores partes de ter mudado para tão longe.

Sara nunca pensou que sentiria saudades dali. O ideal paradisíaco que todos tinham da cidade em que ela cresceu estava manchado com lembranças de área rural e ruas de terra que viravam um lamaçal quando chovia; ou com longas esperas no lobby de um hospital praticamente abandonado.

Ah, é. Ela tinha bons motivos para detestar aquela cidade – até mesmo aquele estado. Odiava, porém, quando voltava assim, entre turistas ansiosos para as festas de fim de ano, amava profundamente também. Seus sentimentos eram como se fossem um quebra-cabeça querendo pagar de difícil, mas que na verdade era bem simples.

O irmão de Pati, Guga, era quem estava esperando por elas, e ele dirigiu o caminho inteiro contando com detalhes como foi assistir o amistoso de final de ano no Maracanã. Ele tinha estado no meio da confusão que aconteceu na final da Sulamericana, mas não tocou no assunto, porque sabia que Pati ficava ansiosa em saber que não estivera com ele (mesmo que ela não fosse de grande ajuda para protege-lo; Guga, embora fosse mais novo, era bem mais alto e forte do que as duas juntas).

Parte de Sara esperava que seu próprio irmãozinho – que, na verdade, era um rapagão de 19 anos de idade, já – estivesse acompanhando no carro, mas ela sabia bem que algumas coisas eram difíceis de mais, e além de tudo, ele iria acompanha-la na formatura em pouco mais de um mês.

- E esse Theo? – perguntou o irmão de Pati, olhando de rabo de olho para a aliança dourada na mão direita dela. – É de confiança?

- Claro que é! – Patrícia protestou e ele lhe deu uma cotovelada.

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