2. As histórias do avô (parte 2)

Começar do início

— Eu não sei de nenhuma – Yvy Rajy completou.

— É que seu avô só conta a história de Kerana. Porque a Porasy, sua irmã, se chama Porasy e a Porasy original foi tia da Kerana.

— Ai, que complicação! – Yvy exclamou. – É Porasy demais para o meu gosto.

— Deixa o vô continuar! – Uma das primas de Porasy que já estava ali há um bom tempo queria que o avô continuasse a história.

— Continua, vô – Porasy pediu.

A mãe de Porasy, que se viu contrariada, saiu aborrecida e se dirigiu ao barraco. Na verdade, ela não queria ouvir a continuação da história. Ela não gostava daquela história. Ou melhor, não era que ela não gostava da história, ela não suportava o fato de que avô queria relacionar as duas Porasy uma com a outra. Ela odiava aquilo. Odiara desde quando disseram, pela primeira vez, o nome da menina ao avô. Ela ainda não tinha um mês completo e o que ouviram de Tupã'y foi: "Vocês não podiam ter dado esse nome a menina. Agora ela está marcada por um mal". Naquele mesmo mês, os pais se sentiram obrigados a proteger a menina das maldições que acreditavam, as palavras más e as predições maléficas traziam sobre ela. Levaram então a pequenina à igreja cristã, batizaram-na e a consagraram a Deus. Acreditaram assim que ela estaria protegida.

— Kerana, a bela filha, foi capturada por Tau – estas foram as últimas palavras que a mãe de Porasy ouviu antes de desligar-se da voz, sumindo pela porta do barraco escuro. – Juntos, eles tiveram, por sete anos seguidos, sete filhos: O primeiro foi Teju Jagua.

Nesse instante, Thomas, o primo de Porasy de quatorze anos, que também morava nos barracos ao redor e chegara ao grupo havia alguns minutos, começou a dizer, junto com o avô, as mesmas palavras. Caçoava da história e indicava que a conhecia de cor.

— O segundo foi Mbôi Tu'i, aquele que se tornaria o deus dos cursos das água e criaturas aquáticas – o avô continuou, ainda que amolado com o neto desrespeitoso -, Monhãi foi o terceiro e este viria a ser o deus dos campos abertos. Depois nasceu Jasy Jaterê, o deus da sesta, Kurupyry, o deus da sedução, da sexualidade e fertilidade. Em seguida nasceu Ao Ao, o deus dos montes e montanhas e, o último, Luison, deus da morte e tudo relacionado a ela.

Thomas começou a rir quando chegou, junto com o avô, ao fim da nominação dos filhos de Kerana. Tupã'y não demonstrou raiva ou qualquer sentimento negativo para com ele, senão uma tristeza profunda.

— Para com isso, Thomas – um dos tios do garoto o repreendeu. – Respeita o seu avô.

— O vô não tem repertório novo, não? – Falou começando a andar para os lados da rodovia. – Só conta essa história.

Aquilo não era verdade, é claro. Ele contava muitas outras histórias, narrava toda a mitologia, se desdobrava em se fazer ouvido, em que algum deles, de alguma forma, fosse quem fosse, desse o valor devido à sua narração. Mas cada vez mais ele percebia, com um aperto no coração, que ninguém acreditava nele. Recebiam e ouviam suas histórias. Mas apenas como lendas, folclore e superstição. Talvez não demorasse muito tempo para ele se calar de vez. E no fundo de seus pensamentos ele temia não conseguir direcionar e salvar a neta do mal que, acreditava, lhe estava destinado.

— Seriam deuses, só deuses, não tivessem sido amaldiçoados pela grande deusa Arasy, a companheira de Tupã – O avô de Kerana ainda insistiu para quem quisesse ouvir. – E então todos, exceto um, nasceram como monstros horríveis.

Como que para fixar um pensamento, uma ideia que considerava importante, ele repetiu a frase que já tinha dito antes para Porasy:

— Muitos dos nomes dos deuses antigos foram esquecidos pelos homens, mas a nossa etnia ainda mantém vivas as histórias desses sete monstros.

O mate já não circulava mais. O sol já estava aquecendo o lugar onde estavam e começava a fazer calor. Mas ainda que sem o mate, a conversa continuou. Os mais velhos comentando e acrescentando detalhes à história de Tupã'y. Sempre diziam conhecer alguém que já vira ou se deparara com algum sinal de um dos filhos de Kerana. Porasy entendeu a verdade da frase repetida pelo avô. 

(1400 palavras) 

(Não se esqueça de deixar o seu voto na estrelinha)

Anexo 

Criança indígena 

Todos gostavam de ouvir as histórias do avô

Ops! Esta imagem não segue as nossas directrizes de conteúdo. Para continuares a publicar, por favor, remova-a ou carrega uma imagem diferente.

Todos gostavam de ouvir as histórias do avô. Inclusive as crianças. 


Porasy e o estranho mundo das histórias de seu avô indígenaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora