2. As histórias do avô (parte 2)

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Porasy, como os outros, continuavam ouvindo as histórias do avô. E ele se empolgava em contá-las.

Nhamandu cresceu a partir do nada, como um broto de uma futura árvore surge de uma semente mínima e, arrebentando a terra que lhe cobre, se eleva sobre ela, se impondo, Nosso Pai Primeiro surgiu – o avô continuou. – Às batidas de seu coração, a luz de seu peito brilhava, afastando as sombras das trevas. Ele concebeu a palavra e com ela criou os outros deuses. O primeiro deles foi Nhanderu Py'a Guasu, o Nosso Pai de palavras sábias. Em seguida criou Karaí, o Dono da chama e do fogo solar, depois veio Jakairá, o dono do nevoeiro, da neblina e do tubo de fumaça que inspira xamãs, e então Tupã, o dono das águas das chuvas, tempestades e também dono dos trovões e raios.

A história se prolongaria muito, Porasy sabia. Mas ela não se importava, gostava delas. Pouco a pouco outros foram se ajuntando a eles. A roda do mate cresceu, a erva da cuia trocada algumas vezes, mais água fervida fora trazida para que todos usufruíssem da bebida.

— Junto com os primeiros deuses Nhamandú criou a terra, chamada Yvy Tenonde. E nesse tempo também foi criado o mar, o dia e a noite. Eles, os deuses, começaram a preencher a Terra com os primeiros animais e fizeram surgir as primeiras plantas. Em seguida, apareceram os homens. Aqueles que foram os privilegiados de viveram junto com os deuses. Essa criação primeira, dos primeiros humanos terrenos, foi uma obra engenhosa! Primeiro Nhamandu elaborou estátuas de argila do homem e da mulher, com uma mistura de vários elementos da natureza. A primeira criatura assim surgida foi Avá, o verdadeiro ser humano. Dele surgiriam outras pessoas, outras etnias. O primeiro homem e mulher criados por Tupã foram Rupavẽ e Sypavẽ, nomes que significam, respectivamente, "Pai dos povos" e "Mãe dos povos. O casal teve três filhos e um grande número de filhas. Nhamandu, o deus primeiro, então os deixou e partiu de volta aos céus. Mas na Terra, ficaram os espíritos do bem e do mal.

Entre idas e vindas, já se encontravam junto ao Avô e Porasy: a mãe, o pai, alguns tios e tias, as duas irmãs e algumas outras crianças. Todos atentos à narração. Isso fazia Tupã'y ainda mais animado com a história. Ele a contava como se executasse um ritual sagrado, como uma música oferecida aos deuses.

— Rupavẽ e Sypavẽ, os primeiros humanos, se uniram e tiveram três filhos e um grande número de filhas – o avô continuou. – Os filhos foram: Tumé Arandú, considerado o mais sábio dos homens e o grande profeta Guarani; Marangatu, o que se tornaria um líder generoso e benévolo; e Japeusá, este foi uma pessoa ruim, era mentiroso, ladrão e trapaceiro, procurando sempre tirar proveito das pessoas. Marangatu também casou e teve filhos. Ele foi pai da Kerana. A bela . Aquela que gostava de dormir. Talvez a mais bela menina que já existiu na Terra. O que foi a sua ruína.

Tupã'y pareceu muito triste ao narrar essa parte da história. Como se ele falasse de uma filha sua, ou de uma neta que estivesse passando, ou passado por um intenso sofrimento.

— Melhor teria sido se ela fosse uma menina como as outras, sem nenhum atrativo físico e emocional que se a destacasse tanto - continuou. – Mas ela era bela demais, cativante demais e se tornaria, para a sua própria destruição, desejada demais. Kerana cresceu e se tornou uma moça. E já não era só o seu rosto lindo. Ela era toda maravilhosa, em todos os sentidos. E isso chamou a atenção de seres humanos e de espíritos. Dentre os espíritos do mau, Tau se apaixonou por ela.

— Que triste a história de Kerana – alguém comentou. – Eu acho a mais triste história de todas.

— Existem outras histórias tristes na nossa mitologia original – a mãe de Porasy rebateu. – Existem outras ainda mais tristes.

Porasy e o estranho mundo das histórias de seu avô indígenaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora