VI

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Depois de passarmos o resto da tarde vagando pelo mar, finalmente Lucas teve alguma intuição mais acertada sobre qual caminho deveríamos seguir. Normalmente eu quem comandaria a navegação, mas hoje eu estava muito esgotado para pensar em qualquer coisa. Quando chegamos na ONG fui recebido como sempre, dezenas de crianças pulando ao me redor. Peguei algumas no colo enquanto tentava avançar porta adentro. Era como uma onda de pessoas pequenas me impedindo de andar; todas queriam saber como foi a expedição e se o golfinho que estávamos rastreando desde semana passada, estava bem. As crianças acompanhavam de perto os tratamentos dos animais, penso que elas se sentem úteis em ajudá-los, se reconectam com um amor puro e assim esquecem de todo o horror que passaram. 

"Gente, eu infelizmente não o encontrei. Mas em breve voltarei atrás daquele danadinho!"

Elas pareciam tão felizes com a notícia! Parece que se identificavam com os animais resgatados e tratados, mas que logo voltam para o mar. A única diferença entre os animais e as crianças é que elas não tinham como voltar, não podiam de forma alguma. Tudo o que elas conheciam estava devastado, eu sei pois sofri o mesmo; a escola que estudaram não existe mais, suas famílias completamente destruídas, cada parque, cada hospital, restou apenas os escombros e o pó da morte. Nós não falamos sobre o futuro com elas, nós não falamos de suas famílias e de sua certa morte. Mas eu sei que lá no fundo elas sabem, e as que não tem dúvidas quanto a isso, as que perderam totalmente as esperanças, são apenas porque testemunharam esse maior desastre de suas vidas. O único fato que as tornam iguais é a vontade em viver apenas o presente, um segundo de cada vez.

No final do corredor parcamente iluminado estava Layla, ela esperava calmamente que eu desse atenção à todas as crianças para depois poder me dedicar inteiramente a ela. Justamente quando as outas iriam se esquecer um pouco de mim, é quando Layla tomaria minha atenção. Foi assim desde o início, antes de ser querido na instituição, foi ela quem se aproximou primeiro - antes mesmo de Lucas - e que confiou seu amor. Eu havia acabado de voltar do hospital e estava em uma maca junto a vários outros doentes. Profundamente magoado com o mundo e com qualquer bondade celeste que eu alguma vez havia acreditado. Tinha passado da fase de chorar e estava naquele patamar em que você tem tanta dor e mágoa que é capaz de destruir qualquer um que ousar se aproximar. Você se enche de tristeza e seu combustível é a dor. Eu observava que uma garotinha sempre me olhava de longe, temerosa em se aproximar, mas que não desistia de velar meu sofrimento. Ela se apoiava no batente com tinta descascada da porta, e me olhava. As vezes ela pegava um lanchinho do almoço e comia lentamente em frente ao meu quarto, por algum motivo ela sempre mantinha-se por perto. Eu, preso dentro do concreto do sofrimento, a olhava com raiva na esperança de que isso a afastasse; porém ela  continuava vindo e sua presença era cada vez mais frequente. Certo dia eu me cansei dessa brincadeira idiota e perguntei bruscamente "qual o seu problema?" sorte dela que eu ainda precisava ficar em repouso, pois caso contrário eu certamente teria sido mais estúpido do que fui. Ela muito delicadamente sentou-se na beirada da cama, com uma florzinha de mato nas mãos e respondeu: "eu não tenho mais medo de você". Talvez naquele momento minha ficha tenha caído e eu tenha percebido quão cruel estava sendo. Ou talvez eu tenha visto algo naquela menina, tenha visto alguma parte de mim que já havia morrido há muito tempo. Acontece que desde então deixei de tratá-la com desdém e passei a olhá-la sem rancor. Nossa relação continuou assim por muito tempo, mas quando me recuperei e passei a perambular pela casa, ela deve ter entendido aquilo como um convite de amizade. Estávamos em uma semana horrível, eu tinha reparado o quanto ela amava queijo, então em nosso almoço - que consistia de pão, queijo e presunto - eu tirei a mísera fatia de mussarela e entreguei a ela. Seu olhar era tão inigualável, parecia que eu havia lhe entregado uma caixa de safiras. Seu próximo ato de amizade foi um livrinho sujo e velho; era madrugada e eu não conseguia dormir - uma das únicas certezas da minha vida - e ela adentrou o quarto que eu dividia com mais outras pessoas, pisando com cuidado e sem fazer barulho com suas meais encardidas. Sentou-se ao meu lado e sem que eu tivesse dito nenhuma palavra, começou a ler bem devagar, letra por letra, o livro "A Pequena Sereia"

Sociedade das Sereias - Reino de AletheiaLeia esta história GRATUITAMENTE!