Vinte e nove - Jax

153 26 9

Então era isso.

Alice tinha ido com Quentin e eu tinha ficado nas Terras Não-Clamadas, sem meu irmão e com um gato imprestável que fazia questão de ficar me lembrando a todo momento como minha suposta performance na frente do exército de Quentin tinha sido, aparentemente, patética.

- O que você queria que eu tivesse feito? - rosnei, batendo o machado com tanta força contra o tronco de árvore que uma lasca voou e quase acertou o gato. Eu não teria me importado se tivesse.

- Você podia ter se esforçado um pouquinho mais, Trent. - resmungou ele, porque parecia que era a única coisa que ele sabia fazer. - Quer dizer, eu quase morri para vir te avisar que tinham pegado seu irmão, caso você não tenha percebido.

Ele levantou a patinha enfaixada para enfatizar. Como eu seu fosse ficar com dó, francamente.

Então Tobias continuou a falar e falar, mas eu não estava mais ouvindo. Tudo em que eu conseguia pensar era em como tirar Alice das mãos de Quentin sem acabar morto - ou sem que ela acabasse morta - no processo todo.

Maldita maldição...

Maldição.

Maldição?

Meus olhos correram para Tobias, que estava sentado lambendo suas partes íntimas - uma coisa que ele aparentemente gostava bastante de fazer. Larguei o machado e andei até ele, me sentando à sua frente.

- Tobias? - chamei. Ele parou, virando-se lentamente na minha direção. Havia alguma coisa nos olhos dele... E no modo como ele falava...

- Trent? - ele repetiu.

Só uma pessoa me chamava de Trent.

- Tobias.... Tobias? Tobias!

O gato miserável continuou a me encarar como se eu tivesse ficado completamente maluco, mas eu tinha certeza... era ele. Claro, agora tudo fazia sentido. Como ele vivia protegendo Alice, como aparecia nos lugares mais inesperados.

- Tobias, dos estábulos - eu disse.

Vi o gato engolir em seco, algo que, eu tinha bastante certeza, gatos normais não costumavam fazer. Então ele se endireitou com toda a dignidade que um gato é capaz de recolher, me olhou nos olhos e, sem nenhuma cerimônia ou sinal prévio, pulou na minha cara e arranhou minhas bochechas.

Eu gritei, porque o que mais eu podia fazer? Quando finalmente consegui puxá-lo pela pelagem, Tobias chiou, se retorceu e conseguiu escapar, correndo para o meio da floresta.

Ótimo. Simplesmente magnífico.

Passei a mão pelo meu rosto, só para constatar o que já era óbvio. Havia grandes arranhões nas minhas bochechas, que sangravam e ardiam. Se eu pegasse Tobias, ele ia entender o real significado da música "atirei o pau no gato".

Terminei de cortar a lenha que minha mãe precisava, coloquei tudo na carroça e parti para a hospedaria. Enquanto Filippa me puxava, fiquei imaginando onde Sebastian estaria e o que Quentin teria feito com ele - porque Sebastian podia ser um banana na maior parte do tempo, mas ainda assim era meu irmão, eu o amava e não sabia o que seria capaz de fazer se Quentin tivesse feito alguma coisa com ele.

Filippa parou antes mesmo que eu tivesse percebido que já havíamos chegado. A hospedaria estava vazia, o que era bastante incomum. Normalmente sempre havia pessoas lá, não importando o dia ou a hora. Mas depois do que havia acontecido, eu duvidava que as pessoas quisessem sair, fosse para comemorar, fosse para se embebedar.

Descarreguei a lenha da carroça e comecei a levar tudo, aos poucos, para a cozinha. Quando entrei, quase deixei tudo cair no chão.

Havia um mensageiro com as cores de Quentin sentado à mesa, ao lado da minha mãe. Ela não parecia nada feliz e isso explicava porque a hospedaria estava tão vazia.

Coração de vidroLeia esta história GRATUITAMENTE!