ONE | YEARS

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2518. Era o ano que todos festejavam ao meu redor.

Afinal, haviam se passado exatos 500 anos desde a terceira guerra mundial ou, como a chamamos, A Grande Guerra. A guerra que quase levou à humanidade ao seu fim. A guerra que somos obrigados a aprender sobre, para que não possamos repetir o mesmo erro de nossos antepassados que botaram tudo a perder por causa de suas ambições por poder.

Não existiríamos se não fosse pelo (nem tão) pequeno Bunker em que vivemos há quinhentos anos, ou pelo menos é isso o que os organizadores nos dizem. Viva os tataravós dos nossos tataravós que eram familiares dos militares em guerra e foram privilegiados com essa base subterrânea!

Bom, como posso contrariá-los se nasci e cresci neste buraco? O mesmo buraco que a cada dia que passa está ficando cada vez mais sem espaço e sem recursos. Não é para pouco, visto que foi construído para abrigar 100 pessoas por, no máximo, dois séculos e hoje abriga 210 pessoas durante meio milênio.

Como conseguimos sobreviver por tanto tempo? Nem eu mesma sei.
Acho que essa proeza se deve ao nosso conselho, formado pelos organizadores do nosso sistema, que ao longo dos anos adotaram uma série de medidas para que economizássemos os nossos recursos.

Posso citar as mais famosas como:

- Cada pessoa ter direito a um banho de dez minutos a cada três dias;

- Ser apenas permitido um filho por casal, com exceção para gêmeos;

- Comer apenas duas refeições por dia e essas terem um determinado peso.

E se alguma das regras for quebrada, o indivíduo:

- Caso possua mais de 18 anos, é morto sem cerimônia e jogado na fossa, o lugar abaixo do Bunker onde ficam nossos lixos e por onde passa nosso sistema de esgoto;

- Caso não possua a maioridade, os responsáveis por ele é quem são punidos.

Foi assim que perdi o meu pai. Ele e minha mãe acabaram se descuidando e dando origem a um novo filho quando eu tinha sete anos. Tentamos, e conseguimos, esconder Wallace por dois anos, mas em uma verificação mensal, os guardas acabaram o achando embaixo da minha cama e o meu pai foi condenado e morto no dia seguinte.

Eu ainda consigo escutar os seus gritos enquanto ele era arrastado para fora de nosso quarto. Foi horrível.

Apesar de já ter feito oito anos, as pessoas não esqueceram. Eu e minha família ainda somos apontados por um ou outro, aqui e ali.

É, eu sei, isso é uma merda.

— Ninka, você pode me dizer quem era o presidente dos Estados Unidos em 2017? — o meu professor perguntou para mim, fazendo o restante da turma me encarar.

Apesar de morarmos no fim do mundo, os organizadores acham importante que todos os jovens saibam a história de como tudo ocorreu desde A Grande Guerra. O que para mim é uma grande bobagem, quer dizer, escutamos essas histórias o tempo todo de idosos que dizem ser netos dos netos dos netos de militares que participaram da guerra.
Então, para que ser obrigado a passar quatro horas diárias dentro de uma sala metálica minúscula com um velho dizendo tudo aquilo que a gente já sabe e ensinando os costumes antigos, sendo que não vivemos mais na superfície? Viu? Bobagem!

— O senhor que é o professor aqui, então me diga você — eu rebati, fazendo algumas pessoas rirem e outras murmurarem irritadas.

O que posso fazer? Nem mesmo Jesus Cristo agradou a todos.

— Mas eu estou perguntando a você que, pelo visto, tem mantido a cabeça em algo muito mais interessante do que a nossa viagem pelo passado — ele apontou.

— Qualquer coisa é mais interessante do que essa sua aula — retruquei, cruzando os meus braços e dando de ombros.

Ele estreitou os seus olhos e, quando estava prestes a me dar uma resposta, a porta no fim da sala foi aberta. Dois guardas, trajando suas fardas de tons escuros e portando armas de choque, entraram e se posicionaram, dando segurança e espaço para que o Capitão Marcus passasse.

O Capitão é uma espécie de representante do conselho, além de ser a figura com mais influência dos organizadores. Nosso conselho foi criado nos primeiros anos de convivência no Bunker, as pessoas precisavam de regras para conseguirem viverem como uma comunidade e foi isso o que eles fizeram.

Ao passar dos anos, o conselho foi formado pelos organizadores do sistema – qualquer pessoa que tenha conhecimentos técnicos e inteligência o suficiente para ser considerada importante e valiosa pelos outros membros – que entre si escolhiam o seu representante. A verdade é que todos nós temos tarefas, das mais simples às mais difíceis, como se alistar para fazer parte da guarda. É assim que sobrevivemos.

— Desculpe interromper a sua aula, Hamilton — disse ao professor ao chegar na frente da sala.

— Tudo bem, Capitão, a sala é toda sua — o professor recuou alguns passos em respeito.

— Serei breve, visto que não quero roubar de vocês as horas preciosas de aprendizado — ele informou, colocando suas mãos dentro dos bolsos laterais de sua calça de pano — Peço para que todos, sem exceção, compareçam ao salão principal na hora do jantar. Faremos uma reunião decisiva e precisamos que todos estejam presentes, inclusive vocês. — Ele explicou com um sorriso. Marcus, apesar de sua expressão autoritária e de seus cabelos quase grisalhos, consegue manter um tom simpático em seus discursos. — Esperarei todos às oito horas. Obrigada pela atenção. — Ele acrescentou e se retirou com os seus guardas, deixando para trás adolescentes curiosos e ansiosos.

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Espero que vocês tenham tido uma boa primeira impressão da história, apesar do capítulo ter sido meio paradinho. Me sinto na obrigação de explicar que, pelo menos, os três primeiros serão assim até que comece toda a ação e a aventura que é o ponto principal do livro.

Não esqueçam de favoritar e comentar, se tiverem gostado!

Ninka Baker e Os RecrutasOnde as histórias ganham vida. Descobre agora