Capítulo 1

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GUSTAVO

A papelada parecia não ter fim. O relógio marcava 17:54 e parecia não se mover nem por reza nos últimos minutos. Abri a gaveta e joguei todos os papéis dentro dela. Ainda era quinta-feira, eu sabia que, pela manhã, não poderia mais procrastinar aquilo, mas por ora, estava cansado. Respirei fundo, devagar, e fechei os olhos.

Só mais alguns minutos! Só mais alguns minutos!

Enfim, os ponteiros chegaram onde eu queria. Peguei minha carteira e as chaves de casa, me despedi de quem ficaria até mais tarde no escritório e entrei no elevador, ansioso. Não, não havia nada e nem ninguém me esperando no apartamento minúsculo em que eu morava sozinho, mas, eu faria qualquer coisa para sair daquele caos. Enquanto o elevador não chegava no térreo, me perguntei pela milésima vez o que havia na minha cabeça quando decidi fazer faculdade de Direito. Eu detestava aquilo, tanto quanto trabalhar com advogados, papéis e detestava, ainda mais, usar roupa social. Deve ser por esse motivo que, quando formei, não quis fazer a prova da Ordem e continuei trabalhando no escritório de advocacia, algo que já faz três anos.

Três anos nesse inferno. A porta do elevador abriu e encontrei Cecília, uma estagiária que estava trabalhando no escritório ao lado. Ela sempre ficava corada ao me ver, sorria sem graça e, o máximo de palavras que trocamos foi Boa tarde ou bom dia. Hoje experimentaria outra.

- Boa noite, Cecília! – acho que a chamar pelo nome a constrangeu ainda mais, porque ela apenas acenou com a cabeça, sorriu e entrou correndo no elevador, enquanto eu saía.

Talvez ela estivesse interessada em mim, esse poderia ser o motivo da vergonha. Se ela soubesse de metade das coisas que acontecem na minha vida, mal olharia na minha cara. Fui andando até a estação de metrô Tatuapé que, àquela hora, estava lotada, como todo lugar em São Paulo. Eu já estava acostumado a ir em pé até a Barra Funda, onde morava. Depois de um tempo em São Paulo, você se acostuma com os empurrões, pisadas no pé, e até a desafiar a lei de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. É, São Paulo é exatamente assim.

Coloquei fones de ouvido, o celular dentro do bolso e ouvi minha playlist no Spotify até chegar na estação. Era relativamente perto, então, ao sair, fazia todo aquele percurso de dois quarteirões a pé quase no automático. A música tocava no volume máximo do fone para abafar meus pensamentos e, teria sido como qualquer outro dia, se um maluco não tivesse quase me atropelado ao sair do estacionamento de uma loja enquanto atravessava a rua. Ele buzinou, fazendo-me arrancar os fones no susto. OK, eu não deveria usar os fones naquele volume na rua, mas ele poderia ter me esperado atravessar. Mostrei meu dedo do meio antes de chegar à calçada e continuei. Queria gritar para ele enfiar naquele lugar, mas, me contive. Não gostava de chamar atenção. Desgraçado, tanto lugar para passar e quer passar em cima de mim!

Antes de chegar na porta já podia ouvir patas alvoroçadas do outro lado. Luke sempre me esperava na porta, só que, dessa vez, descobri algo assim que olhei para dentro de casa. Havia papel na sala toda. Meu sofá estava nadando no papel e, enquanto ele pulava nas minhas pernas, o encarei, furioso. Aquele não era...

Corri para ver de onde havia vindo todas aquelas folhas, mas, no fundo eu já sabia. Eu esqueci de guardar o script do teste que faria no dia seguinte, deixara em cima do sofá e, por acaso, esqueci de prender Luke na varanda da sacada, porque, como sempre, estava atrasado.

- Droga, Luke. Droga! E agora? – sentei-me no sofá, incapaz de olhar para os pedaços – Como vou decorar o texto?

Luke me olhava, de pé, abanando o rabinho como se eu estivesse falando em outra língua e a tradução fosse: vamos passear. Eu não conseguia brigar muito com esse vira-lata com cara de cachorro de raça, sinceramente. O olhar dele era esmagador. Passei a mão em sua cabeça. Ele havia ficado o dia todo sozinho e, agora, mesmo cansado, eu que teria que arrumar a casa enquanto ele se divertia.

O destino escolheu vocêRead this story for FREE!