Pablo continuava sentado na poltrona abraçado com o filho. Ninguém falava nada no meio daquele silêncio ensurdecedor onde, vez ou outra, alguns olhares eram trocados entre os presentes e os enfermeiros de plantão, que às vezes passavam por ali, mas eram vazios como que esperando algum sinal.

E ele veio.

Por volta das 15h30, um médico alto, careca e com óculos de aros pretos e grossos, saiu do corredor que dava acesso à UTI e entrou no salão com aquele ar grave característico dos médicos. Ao seu lado, estava uma enfermeira baixinha, que também usava óculos, mas com a armação vermelha. Procurava por alguém e, quando cruzou o olhar com o de Roberto, quase que sussurrou um "Venha até aqui", que foi prontamente correspondido com um salto quase acrobático dele do sofá. Pablo, que parecia anestesiado, percebeu logo a movimentação. Tirou com delicadeza o braço que enlaçava Pedro, pois o menino àquela altura e naquele marasmo já estava tirando um cochilo, assim como a avó, e foi devagar se juntar aos outros três para ouvir o que o médico tinha a dizer.

– Doutor, ela saiu do coma? – perguntou Roberto com a voz nervosa.

– Sr. Roberto, a situação era muito grave e ela teve três paradas cardíacas. Na última, infelizmente ela não resistiu.

Tal como o boxeador que acabara de receber um direto na ponta do queixo, Roberto sentiu o golpe e praticamente desabou por cima do médico, tentando abraçá-lo com as últimas forças que ainda lhe restavam nos braços. Lágrimas, como ele nunca havia derramado antes, começaram a cair incontrolavelmente como se as comportas da barragem de um grande rio represado tivessem sido abertas. Não conseguiu falar mais nada; apenas tentava suportar aquela pressão indescritível que parecia querer explodir o seu corpo de dentro para fora, enquanto aquelas palavras cruéis – "infelizmente ela não resistiu" – seguiam martelando sem dó numa espécie de looping infinito dentro da sua cabeça.

Pablo também não falou nada, mas manteve o rosto frio como uma estátua de gelo. Sentiu as pernas fraquejarem, uma dor no peito e um aperto na garganta, mas não soltou uma lágrima. Independentemente de qualquer coisa, tinha consciência de que era ele quem deveria assumir o papel do forte naquela situação, uma vez que o pai já havia literalmente desabado em todos os sentidos e o mesmo iria acontecer com a mãe e com o filho tão logo soubessem da notícia.

Enquanto tentava segurar Roberto, ainda teve presença de espírito para trocar algumas palavras finais com o médico:

– Obrigado, doutor, por ter feito tudo o que foi possível.

– Eu realmente sinto muito.

– E agora?

– A Silvana irá ajudá-los com os próximos passos.

– Obrigado.

Pablo retirou Roberto dos braços do médico e, por alguns instantes, ficou abraçado com ele confortando-o e ajudando-o em vão a enxugar as lágrimas que não paravam de cair. Por um instante, colocou-se no papel dele: um filho de imigrantes italianos que nunca teve nada fácil na vida, mas que conseguiu enriquecer através do próprio suor trabalhando de sol a sol, e que já havia sido derrotado outras três vezes com o aborto espontâneo do que seriam os três irmãos de Juliana. E agora, acabara de sofrer a sua maior derrota ao perder a única filha, seu ente querido mais precioso, num acidente estúpido de trânsito.

O rosto de estátua de gelo derreteu e involuntariamente começou a chorar junto com ele. De imediato, percebeu que o seu choro, na verdade, não tinha nada a ver com a morte da mãe do seu único filho, mas sim por imaginar-se passando por esta mesma situação. A ordem natural da vida estava invertida, pois os filhos crescem para cuidar e enterrar os pais, e não serem enterrados por eles. Entretanto, às vezes acontece. E é duro. Enquanto as lágrimas também lhe caíam dos olhos, entendeu claramente o porquê do até então incansável Roberto estar ali, entregue aos seus braços, mole tal qual um boneco de pano, sem força alguma para qualquer outra coisa que não fosse continuar chorando o que provavelmente não havia chorado em todos esses anos de vida.

Permaneceram abraçados por quase uma eternidade até que o grito desesperado de "PAI" invadiu o ambiente. Olhou por sobre os ombros de Roberto e viu o filho vindo correndo na direção deles gritando "NÃO, PAPAI, NÃO!". Ele então deixou um braço livre para receber o filho, mas com o outro braço não conseguiu segurar Roberto, que terminou desabando rumo ao chão. Não percebeu, inclusive, que ele já caiu desmaiado, pois só teve tempo de se concentrar em abraçar Pedro como realmente se abraça um filho num momento de dor como esse, tentando tranquilizá-lo dizendo "calma, papai está aqui", mas o menino também estava fora de si gritando a pleno pulmões: "NÃO, PAPAI, NÃO!".

E os dois ficaram ali abraçados como se não houvesse amanhã, alheios a tudo o que se passava ao redor, sem perceberem que as enfermeiras já tinham levado Roberto de maca para a emergência, enquanto Maria Clara era medicada com tranquilizantes ali mesmo no sofá.

No carro, Murilo continuava com as patinhas na janela e o focinho para fora vigiando a porta que fazia a ligação do estacionamento com o hospital, mas ninguém entrava e ninguém saía. 

Se esquecer seu coração lá em casa, não o devolverei!Onde as histórias ganham vida. Descobre agora