Capítulo 13

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Murilo ficou bastante preocupado com o que havia acontecido com o seu dono, pois desde que voltara do encontro com Paulão ele estava aparentemente muito mais triste e com um ar de vencido. Limitava-se a falar o essencial: "Vamos almoçar com o Pedro", "Senta aqui", "Está pronto? Posso ligar o carro?", "Chegamos ao hospital", "Vamos a pé porque o restaurante é na outra esquina".

O clima não estava bom e no restaurante também não foi muito diferente. Roberto e Maria Clara quase não falaram nada, e os poucos sons emitidos ocorreram quando ele se prontificou a responder a alguns dos questionamentos do próprio filho.

Saíram do restaurante e foram todos caminhando de volta ao hospital, que ficava na outra esquina no mesmo quarteirão. Antes de subirem para a UTI, Pablo foi com Pedro e Murilo para o estacionamento. Ele abriu a janela do carro, colocou água na pequena vasilha vermelha de viagem, estendeu um jornal em cima do tapete de borracha que ficava atrás do banco do motorista e arrumou o pano colorido sobre o banco traseiro. Fez um carinho na cabecinha do pequeno e disse:

– Vai ficar tudo bem. Se cuida, tá?

Fechou a porta do carro, abraçou o filho e foram juntos em direção à entrada para fazerem o cadastro na recepção do hospital. Murilo ficou com as patinhas apoiadas na janela e o focinho para fora os observando.

– O horário de visita é somente às 16 horas, mas vocês poderão aguardar no salão próximo da cafeteria – disse a simpática atendente.

Pablo instintivamente olhou para o grande relógio de aço escovado que ficava na parede atrás dela e teve uma leve decepção quando viu que ele marcava apenas 14h30.

– Tudo bem, dá tempo de tomar um café.

– Fiquem à vontade – encerrou com mais um sorriso.

– Obrigado.

Os dois subiram de elevador para o segundo andar e logo avistaram os pais de Juliana sentados no grande sofá verde-escuro que ficava no salão em frente à entrada da cafeteria. Havia ainda outras pessoas espalhadas em algumas poltronas, mas para ele parecia que faziam parte da decoração. Sinalizou um "oi" com um movimento de arregalar os olhos e franzir a testa, e foi sentar-se com o filho na poltrona que ficava ao lado do sofá onde eles estavam, separada por uma mesinha que tinha um abajur retangular branco e algumas revistas.

Nem tentou comprar o café, pois na verdade o que ele mais queria era ter voltado para o hotel e ter ficado por lá mesmo para dormir, pois se sentia exausto e indefeso como um bebê. Melhor ainda seria se pudesse desaparecer, mas isso só aumentaria ainda mais a pecha de covarde que o amigo já havia lhe imputado; e ele, que sempre suspeitou, agora tinha certeza de que era real, mas ainda não fazia a menor ideia de como lidaria com isso. As verdades sinceras ditas por Paulão atuaram como um inesperado e devastador terremoto de magnitude nove na escala Richter, deixando uma terra arrasada em todo o seu estado psicológico. Se até voltar para Ribeirão, de certa forma, ele sentia-se mais leve e feliz por finalmente ter começado a reassumir as rédeas da sua vida profissional a partir de um caminho já pavimentado, com relação ao lado pessoal tudo precisaria ser reconstruído do zero.

Respirou fundo e recostou-se por alguns instantes naquela poltrona macia, que no final das contas até que poderia ser considerada como um prêmio de consolação diante de todas as circunstâncias. Abraçou o filho, deu-lhe um beijo carinhoso na testa, apoiou a cabeça nas costas da poltrona e ficou ali inerte apenas e tão somente respirando e contemplando o teto.

Passaram-se dez minutos. Nenhuma movimentação. Passaram-se mais dez minutos. Nada mudou. Os minutos e os segundos continuaram passando de forma arrastada no relógio de alumínio que enfeitava uma das paredes, enquanto a televisão, que não tinha som, não parava de mostrar dezenas de imagens dos principais fatos do dia, e que os pais da Juliana e os demais pareciam assistir sem dar importância alguma.

Se esquecer seu coração lá em casa, não o devolverei!Onde as histórias ganham vida. Descobre agora