Prólogo

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A prisioneira estava jogada no chão, seu rosto doía e seu corpo estava dormente após a sessão de surras que havia recebido. Havia correntes em seus pés, assim como em seus braços que agora pareciam delicados, prestes a se partir em pedaços diante do mais fino toque. Ela mal conseguia enxergar o ambiente diante de si, pois além de estar em algum tipo de cela escura também tinha dois olhos inchados, resultado da agressão que sofrera há poucas horas. Seus braços estavam tremendo e ao passar a língua no lábio superior sentiu o gosto salgado do suor misturado ao de sangue, além de notar um corte fundo que ali havia sido aberto.

Seu corpo estremeceu, não era de medo, era de raiva, ódio e principalmente com a sensação de fracasso. Raiva por não ter conseguido ir em frente com o que se propôs a fazer, ódio do homem – homem não, monstro - que fizera aquilo com ela e fracasso por não saber se os outros ao menos estavam bem.

Suas costas doeram pelo longo tempo na mesma posição, com os joelhos caídos ao seu redor e os braços pendurados para cima quase completamente esticados. O lugar era frio e úmido, jurava ter escutado o som de um ou mais passos ao seu redor e ela tinha certeza de que não era de alguém que caminhava sobre duas pernas. O lugar era estranhamente frio demais, como tudo o que rodeava aquele reino e isso piorava a sua situação. Sua roupa tinha rasgado na luta pela sobrevivência e agora ela só possuía uma fina camada de vestido que muito mal cobria seus joelhos. Os cabelos estavam desgrenhados e os locais de seus membros onde as correntes tocavam, completamente doloridos e dormentes, ela conseguia sentir ao longe o ferro gélido como gelo devido ao tempo sem sombra alguma de calor.

Respirou fundo, convencida de que daria um jeito de sair dali e viu em sua frente uma fina fumaça esbranquiçada provocada pelo gesto. Apenas ali percebeu que realmente estava frio. Seus pés estavam descalços e ela podia senti-los úmidos, provavelmente de sangue, mostrando que também haviam sido cortados. A sessão torturante tinha sido tão intensa que ela não se lembrava nem da metade, apenas sentia a dor nos lugares onde fora machucada. Lembrava-se da voz de seu torturador e de seu riso satisfeito que ela teve que aguentar no tempo em que estivera ali, tempo que já parecia uma eternidade. Ela se recusou a derramar uma lágrima sequer desde que chegara ali, não importava o que Mahlars lhe fizesse.

Sua garganta estava seca e o estômago cansado de roncar pela falta de comida, no entanto ela se recusou a pedir por alimento, se recusou a gritar, se recusou a pedir para que ele parasse, se recusou a fazer qualquer coisa que ela sabia que daria a ele o extremo prazer. Ela nem mesmo sabia de onde tirara aquela coragem, mas estava ali, presente. De repente ouviu passos ao redor e em seguida um barulho de chave sendo inserido numa fechadura. Apenas fechou os olhos sabendo que era ele e prevendo mais um dos seus jogos de tortura. A porta da cela foi aberta e Mahlars entrou com sua roupa de seda fina que alcançava seus pés, o cabelo escuro penteado para trás, o bruxo teve que se abaixar para passar e parar dentro do pequeno cubículo onde a prisioneira se encontrava. Ela o encarou, desafiando-o a dar o próximo passo.

- Pelo jeito ainda continua uma fera arisca! – Disse com um largo sorriso satisfeito no rosto enquanto apontava seus olhos, agora dourados, para ela.

A prisioneira sustentou seu olhar sem desviar, nunca pensou que estaria naquela situação, mas ali estava, sem ter para onde correr, porém com seu orgulho ainda intacto.

- Ela tentou fugir? – Ele perguntou de repente

- Não, senhor! – Um guarda no canto respondeu, ele costumava ficar ali durante todo o tempo observando todos os passos da prisioneira.

- Ela gritou? – Mahlars tornou a perguntar

- Também não, senhor!

- Pediu ajuda, ao menos pediu comida?

A prisioneira quis sorrir em deboche ao ver o olhar confuso de Mahlars encarando seu guarda, mas seu rosto machucado não permitia isso. Era isso o que ela queria, atingi-lo com as armas que podia. Negar esse prazer a Mahlars parecia muito mais satisfatório do que enfiar uma adaga em seu coração.

- Não, senhor! – O guarda respondeu mais uma vez.

- Quanto tempo ela está sem água? – Questionou desconfiado

- Sem água e sem comida há quase vinte e uma horas, senhor. Como dizia a sua ordem!

Mahlars encarou a prisioneira com os olhos semicerrados e avaliou sua expressão. Ela encarava-o com o mesmo olhar desde que chegara ali, ele se espantou ao não constar nenhum resquício de medo neles. Mahlars pensou em quanto a prisioneira conseguia suportar a dor física e uma luz se acendeu em sua cabeça: Será que ela conseguiria se fosse outro tipo de dor? Seus olhos brilharam em ansiedade e se perguntou porque não pensara naquilo antes. Era a hora de mostrar o seu trunfo!

- Ramon! – Mahlars chamou e o homem se aproximou da cela, a prisioneira viu o olhar do mesmo se desviar dela e focar em qualquer outro ponto que não fosse seu corpo. Mahlars andou até ele com um ar esnobe e depois de cochichar por um momento, Ramon saiu do local, amedrontado demais para contestar a ordem do patrão.

- Sabe, minha querida! Eu tenho uma surpresinha para você e acho que vai ser.... surpreendente e muito animadora – Ele disse abaixando-se em frente a prisioneira, rindo do próprio comentário e tocou sua bochecha. Ela não contestou, apenas o encarou em silêncio – Quero que conheça alguém muito importante para mim. – Ele murmurou quando ouviu a porta da masmorra abrir.

A prisioneira continuava encarando-o sem se importar com os passos que se aproximavam. Viu o sorriso de Mahlars e sentiu nojo, uma vontade de quebrar todos os seus dentes a dominava, porém ela se recusava a entrar em surto.

- Mas já está de volta, Ramon? – Mahlars debochou – E olha só quem ele trouxe como companhia...

Ela não sabia o que esperava encontrar, talvez uma arma diferente para ser usada para marcar mais uma vez seu corpo ou qualquer outra coisa, mas ela não esperava encarar aquele corpo, aquela pessoa que ela já conhecia bem. Pela primeira vez ela arregalou seus olhos, sem saber como reagir diante da cena, enquanto Mahlars se satisfazia com um sorriso nos lábios, vendo o desespero nos olhos da prisioneira.

- Bem, parece que finalmente algo te tirou do seu estado lamentável de estupor... ou talvez aquilo tenha sido uma tentativa inútil de parecer corajosa?

A prisioneira não respondeu, apenas continuou encarando a cena sem saber o que seria dela a partir daquele momento. Tinha sido traída e por mais que tentasse continuar com seu orgulho intacto, ele já estava escorrendo pelo solo de pedra lisa da cela, junto com o sangue de seus ferimentos.

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Feliz Ano Novo gente! Está aí um pequeno presentinho KKK Foi apenas para não deixar vocês tão ansiosos, agora só tenham um pouquinho de paciência para o restante da história. 

Quero a opiniões de vocês haha E também quero fazer uma pergunta: Quais são as expectativas de vocês para Perdida? 

Beijosssss!!!!

O Mistério de Allíshya - Perdida | Livro 03Leia esta história GRATUITAMENTE!