Os Três ou A Lâmina de Um Gume - Parte 2 de 2

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Capítulo 2 - A Dança das Folhas




- Aquele bicho me atacou. Poderia atacar qualquer um. Não fiz um julgamento errado.

Benício andava por uma estrada de terra e poeira. Havia uma cerca de arame farpado à direita, e à esquerda o pé de um barranco coroado por bananeiras dando cacho na beira do caminho.

- O que importa é que aquele senhor está a salvo - falou por cima do ombro para o pássaro que subia pelas suas costas.

"Você o abandonou desacordado no meio do campo."

- O que queria? Que eu o acompanhasse até em casa para ele descobrir sobre vocês?

"E ele não está a salvo."

- Ninguém nunca está. - Os outros dois companheiros de viagem voavam alto, eram apenas duas manchas no céu, mas com certeza escutavam a conversa. - Fora isso, eu caço demônios e outras criaturas, não humanos. O que podia fazer eu fiz.

Com a terra anêmica a se depositar sobre os pés de Benício o couro das alpercatas clareava a cada passo. O vento movia as folhas fatiadas dos pés de banana e o Sol se aproximava do ponto em que dividia a manhã da tarde.

"Chegamos", disse o pássaro já empoleirado no ombro.

- Vocês ainda não me disseram o que sentiram dessa vez.

"É um Chibamba. O povo gosta de assustar criança mal criada dizendo que ele vem pegá-la."

- Então, vamos. - Levou a mão ao facão. - Antes ele que carregue mais alguma criança.

"Êh vem o Chibamba, neném, ele papa minino", cantou, bateu as asas e se foi.

- Quê? Para onde você tá indo?

"Ele está no meio do plantio... Suba o barranco e vá reto."

***

As folhas deixavam o solo sujo de sombras e sol.

As bananeiras seguiam enfileiradas uma um clone da outra até onde a vista conseguia tocar.

Benício andava com o facão à espera de matar e livrar o mundo de mais algum mal. Nem o ar mais fresco dali ou a oferta de alimento o fez relaxar.

Caminhou desconfiado por um quarto de hora até um ronco atravessar-se na calmaria.

Por toda a volta as longas folhas das bananeiras pareciam adquirir peso. Curvaram-se. Caíram ainda verdes como se puxadas por uma força invisível. Elas se arrastaram pelo chão se amontoando em um só local como se um vento as carregasse. Benício esperou para ver o que acontecia, não demorou muito e elas se levantaram. Era um lençol de folhas cobrindo um espírito, um demônio, uma pessoa, o que quer que fosse Benício iria extirpar do mundo.

O humano avançou.

O Chibamba desviou do primeiro golpe com um giro. Jogou o corpo para o lado quando a lâmina cantou no ar de novo, depois deu mais um girou se afastando. Os pés batiam no chão marcando a dança.

***

"dançando sozinho, como uma assombração. Vestia-se inteiro com folhas de bananeira e pequenos galinhos. (...) Dançava andando a passos lentos, compassados, dando giros misteriosos ao som de tambores que (...) quase podia ouvir, mas que não estavam tocando."

A Comissão Chapeleira - Renata Ventura


Das bananeiras, os três pássaros observavam.

Viram Benício acertar apenas os pseudocaules dos pés de banana a ponto de prender a lâmina algumas vezes, também viram o suor a descer-lhe pelo rosto, a mão a apertar com mais ódio o facão, a boca a pedir por ar. Quando as pernas do humano começaram a errar os passos, o Chibamba aquietou a dança.

As folhas que o cobriam se abriram como se abrem as asas de um besouro. Duas delas se mantiveram erguidas criando uma brecha para a escuridão do interior daquilo. Ao tempo de uma respirada, uma máscara saiu de lá, o corpo que a usava tinha a musculatura seca. Cada passo que aquilo dava entortava todo o corpo. Dançava. Saboreava a distância até Benício.

Ao contrário do que se esperava o manto de folhas não desabou depois de se ver vazio. Era uma ameaça por trás de uma ameaça.

A expressão da máscara havia sido entalhada na madeira ao custo de um braço forte a tirar pedaços até alcançar uma forma que de longe poderia se chamar de humana. Era de uma angústia de grandes olhos e uma boca escancarada, que por maior que fossem não permitiam que se vislumbrasse um centímetro do rosto, nem o brilho dos olhos, nem os lábios e dentes a sorrir, nada, tudo era um abismo por trás da máscara. Não havia rosto.

Benício girou o facão no ar em uma investida contra o pescoço daquilo, mas o mascarado segurou a lâmina com a mão nua e com o braço livre envolveu o humano. Apertou o abraço. Os dois corpos foram puxados para trás, a coluna estalou, a criatura não soltava a lâmina, Benício se recusava a encarar os buracos dos olhos da máscara. Abraçados, os dois foram sugados para dentro do manto de folhas, que se fechou ao passarem.

As coisas ficaram paradas por alguns minutos, nem os três pássaros tiveram coragem de piar. Olharam-se, talvez sem esperança de Benício irromper vitorioso do meio das folhas. Após um tempo se lamentaram:

"Uma pena."

"Queríamos ver se o poder mudava teu coração, Benício."

"Mas a arrogância era profunda."

As folhas se sacudiram. Sacudiram. O ar se lotou com o chiado das folhas. O Chibamba voltou a girar, dançar. Por fim, seguiu o próprio rumo sumindo por entre as bananeiras.

"Adeus, Benício". Os três cachorros encantados voaram e foram embora.

(844 Palavras)


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Esta parte do conto foi inspirada na ilustração de Filipe Sant'Ana que vi na página do Batalha de Mitos (podem acessar pelo link externo).

Espero que tenham gostado desta pequena aventura por lendas do Centro-Sul, se sim deixe uma estrela, que ajuda muito. Qualquer erro, crítica, sugestão pode deixar um comentário, responderei a todos. E obrigado pela leitura.

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