Às Costas Cruas

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"Quando os sons dos violões vão soluçando,

Quando os sons dos violões nas cordas gemem,

E vão dilacerando e deliciando,

Rasgando as almas que nas sombras tremem."

Violões Que Choram... – Cruz e Sousa




Tão perto do fogo.

"Eu tenho uma história procês". O mais velho do grupo anunciou. "Posso?" Ele estendeu a mão pedindo o violão, que descansava ao lado de uma moça. "Agrad'cido."

Gentes de todas as idades aninhavam-se perto uns dos outros. As faces encarnadas devido às chamas. Os dentes à mostra para disfarçar o medo. Era tarde, e o frio de depois da meia-noite cercava a fogueira.

Alguns dos ali presentes já se conheciam, mas para a maioria aquela era a primeira noite juntos. A dinâmica das histórias à fogueira era para aproximá-los, e era quase uma exigência no imaginário das pessoas sobre um acampamento.

Assombrações. Sombras andando pela casa. Sonhos bizarros. "Um amigo de um amigo meu". Anjos se mexerem numa igreja. Pessoas sem rosto. Sussurros. Um cheiro de enxofre. Todos tinham algo pra contar.

Então, o velho puxou uma cantoria de sua barba branca:



Os dedos numa ligeireza encantaram a todos. Aqueceram. Animaram. Nenhum dos ali presentes estava esperando por aquilo...

"Vocês já devem ter 'uvido uma história de um véi, que carrega menino nas noites crué. Com um saco nas costas, ele vem de mansinho, olhando ao redor, sem sair do caminho, vem atrás de choro, vem bem de fininho... Mas a criança da minha história foi sumida por o'tra fera, esta não tão notória e por isso que se desconsidera... Então me empreste cá o ouvido, preste bem atenção no azar desse menino maluvido... Era uma tarde de casa vazia. No quintal, no quarto em tudo ele bulia! E no meio de tanta arte ele nem percebeu um barulho à parte... as telha batia com o peso de um Quibungo! que vindo vinha pegar o pequeno catibungo! Este só foi perceber que não tava mais tão quieto quando olhou pra cima e viu o bicho pendurado no teto! Era um troço feio do tamanho de um desgosto, e com um rasgo do rabo ao pescoço engoliria um inteiro sem fazer alvoroço! Assim se iria aquele menino com um abrir e um fechar dos dentes do bicho-lupino em uma só abocanhada, em um só gesto assassino! Num ia ficar nenhum rastro, nenhuma pegada do monstro. Da criança não ia ficar um só resmungo, e não ia ter sinal de que ali passou um Quibungo! O garoto não tinha chance frente aqueles olhos amarelo-gigante, porque contra aquele lobo de ponta-cabeça o menino só tinha mais um instante. Daí tirem uma lição e tomem muito cuidado porque isso entra sem ser convidado, e não vai sobrar nada do pobre coitado que der de cara com ele. O Quibungo rasga, arranca ou só engole. E não vai restar nada que console quando ele jogar um dentro da boca-rasgada! e as duas fileiras de dentes-sem-fim se fecharem na carne cansada. E enfim: acabou-se! Era o que eu queria contar: acabou-se o menino da história! Mas, na verdade, não acabou. Não acabou porque eu corri naquele dia, corri todos os que cabem na memória. E o pior é que aquilo não para, não dá sossego, ele fareja o meu medo. Assim tenho penado, e assim sei que me findo, porque já tô cansado e ele tá vindo... Por mais que eu tente, por mais que eu cante não há nada... nada que espante!".

Ao fundo, dois olhos amarelos se abriram no coração das trevas. A boca às costas sorriu - não estava saciada... jamais estaria.

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