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— Está feito. — Começou Anderson empolgado. — Amanhã mesmo eu vou procurar uma gráfica, fazer uns panfletos e tudo mais, tem um amigo meu que mexe com mídias digitais e também. Acho que vou começar fazendo algumas edições para coisas bobas mesmo, aniversários, festas de casamento. Uma boa desculpa para comprar o material. Quem sabe a gente possa nas horas vagas fazer um daqueles vídeos que eu fazia quando era adolescente.

— Ah, tá. — Disse Lívia. — Você vai colocar toda aquela besteira na internet? Vai me fazer pagar mico por tabela?

Ele não entendeu. Anderson percebeu até o tom de voz irritadiço nela e isso não era normal.

— Você tá bem?

— Estou, só não começa a inventar bobeira. Eu já concordei com toda essa história de sair do trabalho. Você já contou pra nossa filha que o pai dela deixou o emprego pra virar YouTuber? Que ela vai ter que saber que o pai dela faz palhaçada pras amiguinhas verem no computador?

— Aconteceu alguma coisa? Tipo, sei lá. Morreu alguém? Eu não tô entendendo. De manhã você tava me apoiando e tudo mais. E eu nunca disse que ia sair do trabalho pra fazer vídeo pro YouTube. Tá, posso até fazer mas eu te falei que meu sonho é ter uma produtora!

— Quem você quer enganar, Anderson?

— Sério, eu não estou entendendo. O que está acontecendo? — Ele disse, e um silêncio fúnebre se fez. Ela estava de costas para ele sentada no sofá. Se via um noticiário ao fundo que falava sobre uma estranha onda de suicídios na cidade.

Ele se sentou ao lado dela:

— Você quer que eu volte pro emprego? Isso não é possível, mas se é algo que você quer eu posso arrumar outro ou sei lá... Eu posso arrumar um emprego como editor também e...

— Agora é que você está pensando nisso? Agora que não tem mais jeito... Eu sempre soube, eu nunca fiz as escolhas certas. É por isso que nossa vida está desse jeito, sem rumo. É culpa minha. Eu faço tudo errado e ela começou a chorar cobrindo o rosto.

— Eu acho que você não está vendo todos os ângulos, meu amor. Tem tantas coisas que conquistamos juntos, olha a nossa volta. Achei que você estava feliz por a gente dar um passo a mais. Arriscar, sabe?

— Vai dar tudo errado! — Disse ela finalmente olhando nos olhos dele.

— O que aconteceu com você? Seus olhos! Eles estão estranhos, estão escuros... Como... Como se você tivesse feito um tutorial de maquiagem que deu errado. — Disse Anderson.

— Até nessa hora você faz piada? É isso que esta família é pra você? Olhe nos meus olhos Anderson, veja o meu sofrimento.

O olhar dele percorreu sua íris e mergulhou na pupila de Livia. Ele enxergou um negrume que nunca havia visto antes. Um buraco que sugava não só a luz a sua volta, mas toda a esperança que havia em seu coração. O susto foi tamanho que Anderson caiu do sofá.

Ele olhou para o lado e viu sua filha vindo em sua direção descabelada, olhos negros. E ela disse: — O mundo não tem sentido! Vou me afogar num balde de Nutela.

Agora a tevê estava em programação especial:

— Um surto inexplicável de depressão tomou conta da cidade. As pessoas não conseguem enxergar além da triste existência da sua vida. Tudo é dor e sofrimento. E elas estão certas, adeus noticiário cruel!

— Vocês não estão bem, eu... Eu preciso buscar ajuda! — Disse Anderson. Ele tentou ligar para todos os serviços de emergência, mas nenhum atendia. Depois de um tempo o próprio telefone parou de funcionar.

Ele então correu pela casa, trancou todas as janelas, jogou fora todos os objetos cortantes, prendeu sua família na casa e correu pelas ruas atrás de ajuda, temendo ser tarde demais, pois

A Origem do Capitão Foda-seLeia esta história GRATUITAMENTE!