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— Você largou o emprego? — Perguntou Lívia perplexa.

— Pensando bem, eu ainda não assinei nada e posso voltar lá e desistir de tudo isso, mas é o meu sonho, querida. Tudo que eu sempre quis fazer!

— Graças a Deus! — Disse a esposa. — Eu já tava começando a achar que você ia ficar doente ou coisa do tipo. Aquele trabalho estava te matando,  querido!

Ele não sabia o que dizer. Na verdade receber o apoio dela era até pior do que ser repreendido. Dizem que a realização de um desejo pode ser um dos maiores pesadelos de uma pessoa, e agora ele entendia por que. A responsabilidade agora seria maior. Se sentiu tentado a jurar que tudo ia dar certo, que seu plano era infalível. Pensou em mil palavras de conforto para compensar toda aquela confiança e companheirismo que estava sendo depositada, mas ele só conseguiu ser sincero e abraçá-la.

— Eu tô morrendo de medo. — Ele confessou.

— Eu sei. — Ela respondeu. — De qualquer forma, eu posso segurar as pontas, fazer umas horas extras, sei lá. Isso se tudo der errado, mas a gente tem que tentar!

***

A mão dele tremia enquanto assinava os documentos. Cumprimentou seu antigo supervisor e saiu do prédio. Estava feito. Quando deu o primeiro passo sentiu-se tonto, o futuro a sua frente nunca fora tão incerto e isso lhe causava náuseas. Não é fácil largar a segurança de um emprego, de uma rotina e apostar tudo num sonho. Pensava o tempo todo que ele ia se arrepender, mas algo dentro dele não iria parar de gritar se ele não fizesse aquilo.

— Um real para um companheiro, — disse o mendigo, — que como você já esteve perdido, mas que encontrou o Nirvana numa garrafa. Te dou algo poderoso em troca.

— Cara eu tô sem nenhum real aqui e eu...

— Bolso esquerdo, o troco daquela coxinha que você comeu no café da manhã, mesmo contrariando o que o médico te falou.

Anderson enfiou a mão no bolso, e sacou a moeda abismado. Foi então que ele fez o mais sensato: jogou a moeda para o mendigo e caminhou duas quadras até que ele estivesse fora de vista. Agora sim iria chamar um carro pelo aplicativo.

Não. — Disse o bafo de cachaça. — Agora você tem que receber o que pagou.

Era impossível. Ele encarou o mendigo por cima do ombro por todo o tempo em que caminhou. Era humanamente improvável chegar tão rápido mesmo que ele tivesse condições de correr, o que o álcool não permitiria.

Já que não tinha como escapar, decidiu entrar no jogo:

— E pelo que diabos eu paguei? — Perguntou Anderson com a voz monótona.

— Uma história.

— Eu te pago cinco reais pra não ter que ouvir, pode ser?

— Não é assim que funciona. Você já fez o sacrifício divino, agora tem que receber o tesouro.

— Do que você tá falando, cara? Eu tenho que ir embora, tenho um monte de coisas pra resolver. Olha lá meu motorista chegando! Tchau! — Mentiu.

— Era uma vez um homem que tinha tudo, e para não perder o que ele ganhou, foi capaz de sacrificar a própria felicidade em prol daqueles que ele amava. Imagine, meu amigo, ter tudo, qualquer coisa ao alcance da imaginação, e ao mesmo tempo não ter nada? Consegue entender essa viagem?

— É agora que você some atrás de uma pedra ou coisa do tipo, mestre dos magos?

— Você é o escolhido, o defensor. Somente quando entender isso você irá voltar e apertar a minha mão... E aceitar seu destino.

— Ok, obrigado, tenha um bom dia. — Disse Anderson começando a andar e sacando o telefone do bolso para chamar o carro. Quando olhou para trás o mendigo tinha desaparecido.

A Origem do Capitão Foda-seLeia esta história GRATUITAMENTE!