Um Banquete à Borrasca

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Sim... como havia sentido falta daquilo.

De novo o toque fresco de outro corpo ao seu.

Sem cama, sem tempo. As roupas? Rasgue-as, puxe-as! Pois nem o cheiro, nem o gosto dele a sacia. Mais... Mais... Mãos. Apertos. Um passar de língua.

O frio do chão contra as costas dele. Os dedos deslizando pelo suor naquele corpo, entre os pelos, pelo umbigo. Um carinho. Machuca.

Isso...!

Sob o peso dela: lágrimas e desejo e um pouco de calor. Forçava. Arranhava. E ele mantinha o olhar parado no rosto dela.

Curve-se! Ela alcança uma boca à espera. Saliva.

As rugas pesavam em seus olhos. O tempo secava sua garganta. Sozinha, restava-lhe sobreviver.

Da cabeça dela o cabelo ralo e branco escorria pelas eras; enquanto seu corpo foi lentamente perdendo a força, a firmeza, a opção de não tremer; mas mesmo assim permaneciam: ela e suas penas negras.

No entanto, tudo já era tão velho... A poeira se acumulava vagarosamente em cada pedra. O vento do meio dia entrava pela abertura da caverna e se deitava sem forças no escuro entre o pó, entre cacos, entre ossos, entre...

Ah...!

As mãos sobre a pele deixavam um rastro de sujeira. Seus dedos imundos abriam a boca dele e enfiavam algo lá dentro. Era inútil. Mesmo assim, ela o agarrava, o colocava dentro de si novamente, tinha que aproveitar o calor que ainda restava nele.

Feitos em asas, seus braços o cobriam. As escamas de suas pernas roçavam na pele jovem. Sua língua preta, seca, passeava por aquele corpo já morto, ainda quente.

A Harpia parou. Ergueu o rosto:

— Quantas visitas... — Saiu de cima do rapaz, com uma mão entre as pernas tentando conter o que escorria por suas plumas. — Quantas visitas me honram hoje.

Deu dois passos lentos que não perturbaram a camada de poeira. Direita, esquerda, direita: com a cabeça ela procurava. Eles estavam bem à sua frente.

Um deles engatilhou uma arma. A Harpia se virou para aquela direção, arqueando as asas e abaixando o pescoço, em seus olhos leitosos ainda havia um tom selvagem e ameaçador.

Uma mulher se pôs no caminho daquele olhar, tirou a arma das mãos do companheiro, sem emitir um som ela moveu os lábios em um expressivo "idiota". Lançou um olhar para cada um do grupo. Depois voltou-se para a criatura com um enorme sorriso, contudo ao se lembrar que a catarata filtraria seus gestos ficou séria.

— Perdão. Que espécie de visita sou eu, que puxa uma arma assim. — Abaixando-se — Veja! — Colocou a arma no chão. — Agora estou desarmada. Me desculpe mais uma vez.

Ao ouvi-la chutar a arma, a Harpia se endireitou na medida do possível já que sua coluna havia se curvado com as décadas que se agarravam às suas costas. Esperou...

— E quem é você, minha coisinha?

— Ninguém. Eu só estava per...

— NINGUÉM!? — Um passo. — Já sou cega, mas não burra. Ninguém? Como tantos outros antes de tu? — Um passo. — Como tantos outros heroicamente enviados para a Morte? — Bateu os dentes do bico com força. — São tantos os que caem. Não acredite em tudo no que dizem; não, não acredite, e não tente me enganar, Ninguém. — O ar lhe saiu como uma leve gargalhada.

— Luna! — Apressou-se. — Luna. Desculpa, não ter dito antes. Esse é meu nome. — Mentiu. E fez um sinal para que os outros três avançassem para os fundos da caverna e procurassem o que vieram buscar. Pés cautelosos, olhos na Harpia e onde pisar.

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