Três microcontos

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"The last man on Earth sat alone in a room.

There was a knock on the door..."

Knock - Fredric Brown




O Cheiro se Espalha e se Quebra


O aroma dos grãos de café a torrar envolvia a todos.

O céu era uma camada de leite a desenhar formas lá encima, e do trem já parado se via as colinas escuras ondularem por todos os lados.

A fumaça se estendia. Forte, tonta.

Trabalhadores sujavam-se com o calor. As sacas de café passavam de braço em braço até o chão e depois ao fogo a se espalhar pelo campo. Rápido! Ainda havia toneladas daquilo para se livrarem.

(78 palavras)




O Cafeomante


Jorge pegou a xícara nas mãos. Concentrou-se. Um gole. Mais um. E outro. Com um pires tampou os restos de seu café. Com um movimento rápido virou tudo. Com paciência esperou aquilo repousar sobre a mesa.

Destravou o celular. Viu as últimas mensagens:

    Onde que tu tá? (14:05)

    Ana, ond é q tu tá? (14:17)

    Responde (14:17)

Tô em casa (14:33)

Tava banhando vou já aí (14:33)

Saindo (14:39)

Ele desvirou a xícara. A borra do café desenhava-se do fundo até as beiradas. Jorge fixou os olhos em um círculo cortado ao meio. Um sorriso marcou o canto da boca. Aquilo significava o fim de um problema. É... de certa forma era...

Girou um pouco a xícara. Revelando um prego desenhado. "Os ciúmes levam à solidão", essa frase martelou-se na mente. Riu da ideia. Iria enfrentar a solidão. Não era questão de ciúmes. Não era.

Acendeu um cigarro para lhe fazer companhia no resto da leitura. Formas sem significado. Borrões. E por fim viu dois raios sussurrarem com audácia que ele estava errado. Jogou a xícara longe. Não adiantava mais tentar ler aquilo...

A tela do celular acendeu. De novo mostrou os dentes. Nova mensagem:

     Ana? Se perdeu foi? (17:55)

(200 palavras)




Debaixo da Casa Não Há Sol


A tempestade entrava pelas grandes janelas, caía por entre os restos de madeira do telhado e do chão desabado do segundo andar.

Vitória dera sorte de encontrar aquele velha fazenda. Essas camadas de ruínas garantiriam um pouco de proteção contra o mal tempo.

Mas, as gotas eram como passos pelo casarão abandonado. Passos que abriam portas, subiam escadas, gritavam debaixo da casa... Era como se a chamassem... e, curiosa, ela foi.

Um corredor, um cômodo vazio, uma porta pequena de madeira podre. Entrou. Desceu. Desceu...

Tateava as paredes. Escuridão. Terra batida, tijolos à mostra. Ali embaixo o teto a obrigava a se curvar.

Então, um dos pés esbarrou em algo. Agachou-se. Os dedos fecharam-se em uma corrente grossa. O ar úmido encheu-se de pavor. E tudo era silêncio.

Voltou correndo. Estranhou os degraus salpicados pela luz Sol e o cheiro de café fresco. Correu mais. A porta revelava mesas cheias, gente cozinhando, a passar de um lado a outro.

De terno, gravata e botas: o Barão se pôs no caminho, segurando a porta. Fechou de uma vez. Trancou. Vitória bateu os punhos contra a madeira sólida.

— Assim como a casa... estamos todos mortos aqui. — disse uma voz atrás dela.


(199 palavras)



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Caso tenha gostado deixa sua estrela. E qualquer coisa é só deixar um comentário, responderei a todos. Obrigado pela leitura!



Como são histórias bem curtas gostaria de aproveitar para conversarmos.

Esses três microcontos foram escritos para um desafio do Sweek, mesmo não tendo gostado muito da plataforma curti o desafio de escrever contos de até 200 palavras, sendo obrigatório uma delas ser a palavra "café". Assim surgiram esses três microcontos, que estão distribuídos na ordem em que foram escritos.

O primeiro (O Cheiro se Espalha e se Quebra) foi a primeira coisa que me apareceu quando pensei em escrever sobre café: "vou falar sobre a quebra da bolsa de 29". Pois é... surpresa(?). Não foi minha intenção, mas achei que se formou uma negócio meio surreal. ¯\_(ツ)_/¯

O Cafeomante (o segundo) surgiu quando eu estava lendo outros microcontos do desafio, em um deles havia a palavra "borra" ou algo do tipo e isso serviu como um gatilho para a história, que se desenrolou quando fui pesquisar sobre cafeomancia e o significado de algumas imagens. Talvez alguns de vocês não gostem do título simples com tecnicamente uma palavra, mas... para mim é uma referência a A Cartomante do Machado, então 'tá ótimo. =P

O último microconto (Debaixo da Casa Não Há Sol) foi o mais difícil de se escrever. Eu queria usar algo mais popular, no entanto, não encontrei nenhuma lenda ou cantiga de roda sobre o tema em si, apenas histórias de fazendas de café assombradas. "Então... vai ser uma história de fantasma, mesmo" . Depois de várias ideias jogadas no lixo, três versões da mesma história, depois de pegar uma chuva daquelas e de cortar 100 palavras consegui terminar esse conto no último dia do prazo do desafio. (Se você conhecer alguma lenda daqui sobre café me avisa. Hahahaha Fiquei curioso).

Acho que era is...

Olha só! Esse texto tem até "extras" - esses são dois microcontos que não considero como bons, mas o importante é que vieram com saúde:


Ferrugem na língua


Não importava o quanto bebesse, aquele gosto não saía da boca.

A fumaça elevava-se do líquido e o café descia lhe queimando a garganta. No entanto... aquele gosto permanecia... como se ainda estivesse a beber sangue fresco.


Do outro lado da mesa


Vi uma mão segurando uma xícara de café do outro lado da mesa. Mas, onde estava o restante do corpo?


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Era isso, gente. Obrigado por ler essas loucuras até aqui. (Tentei, mas não consegui fechar mil palavras).

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