Capítulo 3

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Tirei às pressas a assadeira do forno. Coloquei em cima da pia e contemplei o resultado de minha incompetência: eu acabara de queimar a massa da torta de limão que pretendia fazer para mamãe.

Minha mãe era a personificação da miséria. Dificilmente saía da cama, não comia, não conversava e até mesmo as tarefas mais simples, como tomar banho ou pentear o cabelo, tornaram-se laboriosas. A tentativa de torta era também uma tentativa de alegrá-la, visto que é sua sobremesa favorita. Considerando o estado intragável da torta, teríamos de nos contentar com os biscoitos recheados que estavam no fundo do armário.

Minha mãe fora devorada pelo vazio. A depressão é isso: a vida para de fazer sentido e você se vê desesperado dentro do seu quarto se perguntando por que diabos ainda está vivo. Você é obrigado a coexistir com o desgosto, a amargura, a exaustão e a dor todos os dias de sua vida. Depressão é mais do que apenas desfortúnio – era sentir o bafo da morte bem na sua cara, tentando te levar para o túmulo.

E mesmo diante de um momento aprazível, o depressivo vai continuar pensando: "eu preferiria não estar aqui". Para quem não tem depressão, esse conceito de que não vale a pena viver deve gerar dificuldades de interpretação.

E que desperdício seria se todos cedessem ao chamado da morte.


Falando em morte, ela bateu à porta.

Não com a educação de um bom vizinho, mas aos murros e gritos.

- Eu sei que vocês estão aí, suas vagabundas! – gritava um homem irascível, esmurrando a porta. – Abram essa merda!

- Alexia! – mamãe chamou com urgência de seu quarto.

Corri para o andar de cima e a encontrei tremendo da cabeça aos pés. Era ele.

- Vamos esconder o que pudermos – ela disse.

Havíamos feito um fundo falso no guarda-roupa. Coloquei lá todo o dinheiro vivo que tínhamos em casa.

- Abram essa porra! – gritava Jordan. – Senão vou abrir a cabeça de vocês! Putas sujas! Abram!

- Mamãe, vamos nos esconder! – peguei minha mãe pelo braço e nos trancamos no meu quarto.

Deixamos as luzes apagadas, numa tentativa inútil de passarmos despercebidas. Jordan deu um chute enérgico na porta, que fez com que ela finalmente cedesse.

Alguns instantes de silêncio absoluto reinaram antes que ele começasse a subir vagarosamente as escadas. Degrau por degrau, pisando com deliberação e quietude.

Aquele momento foi um verdadeiro disparate. O que era aquilo, uma imitação chinfrim de filme de terror? Então ele estava brincando de caçar a gente?

Pois foi aí que abandonei toda a minha prudência. Eu não me submeteria ao vexame de ser um brinquedo de um brucutu desalmado.

No ápice do meu impulso, acendi a luz do quarto e peguei o estilete na minha escrivaninha.

- Alexia, o que pensa que está fazendo? – perguntou mamãe.

- Tô fazendo merda – respondi, abrindo a porta. – Te amo, mãe – e, desvencilhando-me de suas mãos fracas, tranquei-a dentro do quarto. Ela gritava meu nome em um tom de desespero que eu nunca havia escutado em toda a minha vida. Batia na porta com toda a força que conseguia reunir.

- Ora, temos uma valentona aqui – anunciou Jordan, com um meio sorriso desprezível no rosto quando terminou de subir as escadas. – Puxou o papai.

Temporada de SuicídioWhere stories live. Discover now