Parte I

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— Outro empréstimo? – exclamou Fernanda irritada, batendo com as palmas das mãos sobre a mesa e fazendo com que os talheres saltassem levemente com o impacto da batida.

— Foi preciso – disse Bernardo sem encará-la e levando o garfo com o jantar à boca.

— Eu não acredito que você fez isso mais uma vez e sem falar comigo!

— Você não entende que foi necessário? – o marido largou os talheres no prato e encarou-a com uma expressão nada amistosa. – Sem esse empréstimo, poderíamos perder o carro. Fora todas as outras contas que temos a pagar e você não colabora.

— Se não fosse por mim, nós nem teríamos as coisas que temos hoje...

— Você nem sabe o que é lutar e correr atrás pra conseguir as coisas e ainda se gaba por ter essa casa que foi herdada de seus pais! Assim fica fácil, Fernanda.

A mulher sentiu os olhos marejarem mas segurou as lágrimas. Ela não queria chorar na frente dele e se mostrar vulnerável mais uma vez. Fernanda lançou um olhar fuzilante para o marido e então se levantou.

— Eu não acredito que eu me casei com um monstro como você!

Fernanda saiu da sala de jantar e foi para seu quarto, na parte de cima da casa. Ali ela poderia chorar o quanto quisesse. As palavras de Bernardo foram muito duras para ela, pois ela ainda não havia superado a morte dos pais, que acontecera há seis meses num acidente de carro.

A vida de Fernanda mudou bruscamente depois deste acontecimento. Além de não ter mais os pais, agora seu casamento de dois anos estava em crise.

As brigas de Bernardo e Fernanda eram constantes. Todas as vezes que se viam, algo sempre incomodava um ou outro e no final acabavam discutindo. Era desgastante. Já não eram mais felizes e a situação financeira estava ruim, com muitas contas e pouco dinheiro para pagar. A angústia de Fernanda parecia querer sufocá-la. Como, de repente, tudo ficou tão ruim?

Por que Bernardo não compreendia que ela estava morrendo por dentro? Ela queria um refúgio. Ela queria paz. Mas agora não tinha ninguém. Seus pais não estavam mais presentes e seu marido parecia não amá-la mais. Fernanda não via mais razão para continuar vivendo.

Naquela noite, Bernardo não dormiu no quarto do casal e Fernanda também não percebeu quando ele saiu pela manhã. A louça do jantar ainda estava suja na pia quando ela entrou no cômodo para tomar o seu café da manhã.

— Melhor tomar um café perto do trabalho – ela murmurou desanimada.

O ônibus estava se aproximando quando Fernanda chegou no ponto e ainda havia lugares vagos dentro do veículo. Que coisa boa! Finalmente algo de bom estava acontecendo.

“O restante do dia poderia ser tão bom quanto o começo...” – pensou a mulher suspirando e olhando distraída pela janela do ônibus.

Seus pensamentos estavam longe, quando uma senhora se aproximou e entregou-lhe um papel.

— Não... Eu não tenho dinheiro – Fernanda disse empurrando o papel com a mão.

— Não é para ajudar – a senhora explicou gentilmente. – É apenas um convite. E é de graça.

Fernanda sorriu sem jeito e então pegou o papel.

“Especial de Natal...” – ela leu e seus olhos marejaram. Seria o primeiro Natal sem a presença de seus pais. Seu coração apertou.

Fernanda passou o dia como se estivesse ligada no automático. Respondia as perguntas de seus colegas com frases curtas e executava suas tarefas sem raciocinar muito.

Quando ela chegou em casa, percebeu uma movimentação diferente na parte de cima da casa. Ela subiu as escadas lentamente e se surpreendeu.

— O que você está fazendo? – perguntou Fernanda ao perceber que Bernardo estava organizando todas as roupas dele que estavam no armário numa mala, em cima da cama.

— Eu vou embora – ele informou sem olhar para ela. – Você sabe que não está dando mais...

Fernanda abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. Se Bernardo fosse embora, talvez seus dias ficassem melhores e sem as brigas diárias. Mas no fundo ela não queria isso... Ele era seu marido e a única pessoa que ela tinha na vida agora.

Bernardo fechou a mala e passou por Fernanda na porta do quarto. Ela apenas o observou e não conseguiu reagir a nada. Quando Fernanda ouviu a porta da entrada bater, as lágrimas começaram a rolar descontroladamente de seus olhos. Ela estava completamente só agora.

Os dias seguintes passaram se arrastando. Ela não tinha mais notícias de Bernardo e o número de seu celular não respondia mais ao toque. Fernanda imaginou que ele tivesse trocado o número propositadamente para não ter que falar mais com ela.

“Vamos, Fernanda... No fundo era isso que você queria.” – pensava ela tentando se conformar, quando observou a parte vazia do guarda-roupa novamente. Talvez assim sofresse menos.

Enquanto retornava de seu trabalho na noite do dia 23 de Dezembro, Fernanda ficou observando as decorações das ruas e nas casas. Tantas luzes, laços, bolas metalizadas, árvores decoradas,  bonecos de Papai Noel por todos os lados. Fernanda sorriu ao se lembrar das cartinhas que costumava escrever para ele quando era criança e como os seus pais sempre concediam seu desejo, presenteando-a com aquilo que ela queria. Presentes... Ela nem receberia ou entregaria algum este ano.

Observando todo o clima natalino, Fernanda se deu conta do quanto tudo era banal. Era apenas uma data pomposa para as pessoas mostrarem que podiam gastar com decorações admiráveis e uma mesa farta de comida. E depois? A vida continuava a mesma. Os problemas não iriam embora, as tristezas diárias voltariam.

“Pra que tanta coisa se tudo volta ao normal depois?”

Refletir sobre isso fez Fernanda perceber que aquele Natal que ela conhecia e amou por tanto tempo era ridículo. Uma data que fazia as pessoas se iludirem com uma alegria passageira. Uma alegria que não preenchia o vazio que ela sentia naquele momento.

Fernanda entrou em casa e se deitou no sofá da sala. Ela não queria comer, nem tomar um banho... Ela queria apenas ficar quietinha e na esperança que aquela angústia que estava sentindo passasse. Por fim, ela adormeceu.

Era dia 24 de Dezembro e o dia amanheceu nublado. Fernanda só queria se isolar e esquecer de tudo que se referia aquela data.

A única refeição do dia foi alguma coisa que ela encontrou na geladeira e comeu, somente para não desmaiar mesmo. Uma dor de cabeça a incomodou durante todo o dia e ela relutou até mesmo para sair do sofá e procurar por um remédio.

Quando a dor se tornou insuportável, ela foi até sua bolsa. Junto com o comprimido ela encontrou um papel.

— Especial de Natal... – ela leu o convite e se atentou à programação descrita ali. Não tinha nada sobre o barrigudo de roupa vermelha.

“Talvez valha a pena passar esta data em algum outro lugar hoje e entender esse Natal estranho que está descrito aqui.”

Emanuel - Deus ConoscoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora