Epílogo

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Eliza deitava no colo de Bianca, cobrindo o rosto com as duas mãos.

— Não acredito que a gente foi pega... — Ela suspirou.

— Bom... podemos assumir com segurança que foi um jeito de dizer aos seus pais que você gosta de meninas — disse Bianca, esforçando-se para não rir. A ruiva acariciou o cabelo de Eliza gentilmente, como se aquilo a fizesse a garota mais feliz do mundo. —Mas essas coisinhas embaraçosas acontecem. Já foi. Vamos ficar felizes que eles sabem agora.

Coisinha embaraçosa? Chama aquilo de coisinha? — Eliza mordeu os lábios, fechou os punhos, respirou fundo e pressionou as têmporas. — Deixa eu explicar os níveis de vergonha. Ser pega pelos pais ou amigos flertando com a pessoa que gosta é levemente embaraçoso. Ser pega ficando com a pessoa é mais embaraçoso. Ser pega se masturbando é quase morrer de vergonha. Ser pega transando com sua namorada lésbica que seus pais nem faziam ideia que existia ultrapassa isso tudo.

Assim que as palavras saíram de sua boca, as memórias voltaram à sua mente, não a deixando esquecer. Eliza balançou a cabeça, dando tudo de si para não relembrar a cena. De novo. Mas não importava o quanto tentasse, ela tinha sido pega nua com a namorada na cama.

Ainda bem que a gente tava no hospital. Mainha não ia fazer escândalo onde trabalha. Mas por que ela precisava trazer o padre justo na hora exata? Ele é tão lesado que vai acabar contando pra todo mundo da igreja, pensou Eliza, soltando um gemido frustrado. Só a ideia de pessoas saberem que era lésbica antes que estivesse pronta para contar fazia sua cabeça doer. Se eles sabem, dá para assumir que todo mundo sabe. Nunca vi um grupo mais interessado em saber da vida alheia do que o povo da igreja.

— Pera aí. Seus pais já te pegaram masturbando? — A ruiva não conseguiu conter a risada dessa vez. — Você nunca me contou isso. Quando foi?

— Quer parar de falar bobeira uma vez na vida? — Eliza tentou demonstrar toda sua raiva sem gritar. — Ah, puta que pariu. Meu plano foi pro saco!

— Que plano?

— Eu pretendia fazer você se tornar uma presença maior lá em casa. Tipo, ficar lá, estudar comigo, jantar com a família. Esse tipo de coisa. Daí eu sairia do armário pros meus pais. Algo tipo "mãe, pai, eu amo a Bianca."

— Você me ama? — interrompeu Bianca com um grande sorriso e as bochechas vermelhas.

— Eu já tinha pensado em tudo — continuou Eliza como se não tivesse sido interrompida. — Mas, não. O que eu consigo no lugar? "Ei, mãe e pai, tão vendo essa ruiva gostosa pelada aqui com a cabeça entre minhas pernas? Ela é minha namorada lésbica. Eu também sou lésbica e a gente faz coisas de lésbicas juntas." — Ela soltou outro gemido frustrado.

O sorriso de Bianca aumentou.

— Você me acha gostosa?

Embora a visão de Eliza estivesse voltando ao normal lentamente, ela ainda via tudo embaçado. Mesmo assim, não podia suportar o sorriso e olhos animados de Bianca. A garota não suportava mais aquela expressão e cobriu o rosto da ruiva com as duas mãos.

— Para de me olhar assim.

— Não dá. Você ainda não me contou se foi pega se masturbando ou não.

— Até parece que eu ia contar. Levou uma vida para eu reprimir essa memória! — Bianca lutou para agarrar a mão de Eliza. — E por que você está tão tranquila com tudo isso? Foi culpa sua que a gente foi pega. Em vez de rir, que tal pedir desculpas?

— Eu? — Bianca mordeu os lábios, mas não foi o bastante para conter a risada. — Eram duas na cama. Então por que sou eu quem deveria me desculpar?

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