— Você está falando igual à tia Carla agora! — respondi irritada. — O problema é que ele nunca mais me levou lá... Porque eu tenho que voltar sozinha?

A viagem de duas horas se arrastou. Mariana cochilou depois que eu fiquei muda... Ela conhecia bem minha teimosia. A estrada era estreita e cercada de pastos verdes... Minha memória não despertou nem por um segundo. Apenas as fotos antigas confirmavam que aquele lugar devia mesmo existir.

Coloquei o fone de ouvido, conectei minha playlist com musicas de Clean Bandit e Kiiara. Tentei relaxar, mas uma velha angústia me incomodou. Eu não sei explicar porque eu sentia tanta falta de ouvir a voz de minha mãe. Isso me doía! Uma voz perdida para sempre. Não fazia ideia do seu timbre, se falava rápido ou pausado, se alto ou baixo. Eu simplesmente a buscava e a imaginava constantemente.

Quando o ônibus estacionou e o motorista anunciou o nome daquela cidadezinha, eu abri a carta do meu pai novamente:

Quando chegar a rodoviária de Santa Clara do Véu, vá até a padraria do Véu e procure por Tião, dono do lugar. Apresente-se, diga que é filha da Estelinha Gerais, ele vai se lembrar de você. E vai te ajudar a encontrar uma carona que passe pela estrada do rio. Mas não se demore, fique apenas o necessário.

— Ótimo, o tio Marcelo pensou em tudo! — falou Mariana, que acordou sem que eu percebesse.

Eu senti vertigem ao encarar a claridade da manhã. Quase não encontrei o chão ao sair do ônibus. A imagem do coreto da praça se formou lentamente diante dos meus olhos. O ventinho gelado balançou meus cabelos e uma melodia chegou aos meus ouvidos sorrateiramente: "Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo e não foi semeado...".

Mari pegou na minha mão, já descobrira com o motorista onde era a padaria. Então, eu observei a cidade. Em frente à Igreja barroca havia uma praça arborizada, as ruas eram de pedras e as casas eram antigas e coloridas. Caminhamos até bem próximo da Igreja e seus degraus de pedras. Eu conhecia aquele lugar e isso era muito óbvio, mas minha memória me pregava peças, eram apenas sensações e nada mais.

Quando entramos na padaria, senti uma familiaridade tão forte! O cheiro de café fresco e pão saindo do forno poderia se repetir em qualquer padaria, mas o que eu sentia pertencia aquele lugar.

— Não sei você, mas eu estou com fome! — Mariana correu e sentou-se no balcão. ­­— Por favor, um refresco de caju e um pão de queijo grande.

Eu olhei em volta tentando reconhecer o tal Tião. Deduzi que era o homem sentado ao caixa. Mari me sugeriu comer alguma coisa. Olhei o balcão de pães, bolos e salgados, entre as opções havia uma massinha amarela assada com crostas partidas no topo.

— São broinhas de fubá! — Eu sorri como se tivesse decifrado uma xarada complicada. — Eu adorava isso.

Estranhamente comer broinhas com café me fez sentir tão bem que foi fácil me aproximar do homem do caixa e pedir ajuda. Ele abriu um sorriso espantado e admirado, eu percebi que ele freou o impulso de me abraçar e apenas pegou em minha mão.

— Você está muito parecida com a sua mãe... — Tião fez uma pausa. Eu podia sentir a saudade apertando seu peito. — Ela foi uma grande amiga de infância e adolescência. Você canta como ela? Espere um minuto!

Antes que eu respondesse, ele correu para fora da padaria e cercou um caminhão. Depois voltou esbaforido.

— Ainda bem que deu tempo! O Marquinho vai passar em frente ao sítio agora, vocês podem ir com ele. Mas me prometam que vão passar aqui antes de ir embora. Eu tenho algo para lhe presentear. 

Ele me olhou com tanta doçura. Eu sorri e acenei um 'sim'. O caminhão bloqueava a rua, precisamos ser rápidas. O motorista era um rapaz com pouco mais de dezoito anos.

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