Capítulo 2

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Um mês se passou. Era manhã de sábado. Peguei o jornal do dia e rumei à lanchonete perto de casa para tomar café com panquecas, cortesia da proprietária que há muito era solidária com minhas condições financeiras precárias. Por sorte, eu ainda esbarrava em benevolência de tempos em tempos. Às vezes eu saía na intenção de fugir dos meus problemas, das contas que eu não conseguiria pagar, da dor que eu via nos olhos de minha mãe, do medo de Jordan aparecer de novo e se aproveitar de nossa vulnerabilidade; e eu quase conseguia obter êxito nessa fuga. Mas seria, por acaso, possível fugir de si mesmo?

Já dentro do estabelecimento, conferi a primeira página do jornal local entre um gole de café e outro. Considero apropriado compartilhar, na íntegra, a manchete daquele dia.

"Mais uma morte de jovem em Tibax

Foi encontrado na noite de ontem (13) o corpo de Eva Beckert, 21, estudante de Direito. Segundo os legistas, Eva cometeu suicídio dentro de seu próprio quarto, ingerindo uma quantidade exacerbada de sedativos em associação a outros medicamentos.

Este é o sétimo caso de morte abrupta em Tibax neste mês sem uma razão lógica que os justificasse.

De acordo com os familiares, Eva sempre foi uma jovem muito alegre e cheia de vigor. No último mês, contudo, notaram uma mudança drástica em seu comportamento. 'Ela vinha se queixando de ter muitos pesadelos ultimamente', relatou a mãe, '[...] disse que não conseguia dormir, que os pesadelos eram reais [...] Às vezes parecia enxergar coisas e saía gritando pela casa, esbarrando nos móveis que nem uma louca. Estava com medo de tudo e não conseguia mais sair de casa'.

O pai da jovem declarou que levaram a jovem à terapia e chegaram também a buscar ajuda psiquiátrica. Nossa equipe foi averiguar a posição do médico, o psiquiatra Eric Everill. O doutor Everill declarou que '[...] havia, sem dúvida, alguma perturbação muito forte atingindo Eva, porém não consegui chegar a nenhum diagnóstico. Embora o suicídio seja mais frequente em pacientes com depressão, não posso dizer que se tratava desta doença, seria muito prematuro dizê-lo; Eva queria viver, queria sua vida antiga de volta'. Por fim, o médico declara: 'é um caso que simplesmente nos foge da compreensão'.

O corpo de Eva Beckert será velado e enterrado hoje, às 14h, no cemitério O'Guaro."

Ao lado do texto, havia uma foto de Eva – cabelo de cachos bem miúdos, até o ombro, olhos grandes e atraentes e um sorriso digno de propaganda de creme dental. Tibax era uma cidade pequena, portanto eu já havia cruzado com a moça algumas vezes. Foi estranho, para não dizer perturbador, pensar que eu não veria mais aquela distinta apreciadora de alface, que jogava dentro do carrinho verdadeiros buquês verdes e abundantes a cada compra que fazia.

O caso de Eva não era o único a despertar curiosidade. Os jornais já traziam inquietude desde o segundo suicídio na cidade. Eram sempre moças em torno dos 20 anos. Nenhuma delas tratava de algum transtorno mental grave, tampouco levavam uma vida que demonstrasse que elas estivessem descontentes. Era tudo sempre muito rápido – em poucas semanas o comportamento das jovens mudava da água para o vinho (e que bebida letal, não?). Queixas de pesadelos frequentes, medo, privação de sono e perda de noção da realidade eram os sintomas padrão.

Pedi mais café para a garçonete. Avistei uma moça entrando. Estava com as roupas amassadas, o cabelo (que estava amarrado numa tentativa de rabo de cavalo) estava em completa desordem e a exaustão na expressão dela era nítida. Ora, mas seria a Sarah ali?!

- Sarah? – chamei, incerta.

Ela olhou na minha direção. Suas olheiras eram profundas e eu torci para que ela não tivesse notado minha estupefação ao vê-la naquele estado tão decadente.

Temporada de SuicídioWhere stories live. Discover now