Levante

57 10 93

Capítulo 1 – Apetite

Quando Marília nasceu, eu já era gente.

Peguei-a no colo; crescemos juntos. E agora adultos, ela é minha.

***

Sentada no escuro me olhando com fome. Ela me espera, ansiosa por jantarmos juntos.

Os olhos dela me acompanham enquanto uma por uma eu acendo as velas. E nada mais sobra do mundo fora este quarto e essas pequenas chamas.

Os passos apressados, as pessoas berrando, a cidade em ruína, ficam todos do outro lado desta porta. Trancada.

***

Agarrada às grades, ela me estende uma mão.

"Não, você não pode sair, Marília, é perigoso lá fora, e eles não têm piedade."

Afasta-se um pouco como se me entendesse, e se deixa cair no chão. Finalmente abandonara aquela mania dos primeiros dias de tentar me morder, de me puxar. Fica quieta agora, todos os dias imóveis fica sentindo as moscas beijar-lhe a pele.

"Descanse... Logo, logo comerá. Apenas descanse, não há o que temer: a arma à minha cintura nos protege; ninguém irá nos incomodar deste lado da porta."

***

"Sorri, Marília, pois eu estou aqui. Triste... Foi caindo dente a dente seu sorriso, não foi? Pois... cante uma última vez para mim, em sua gaiola. Sua voz era tão bonita, mas agora... agora apenas restaram soluços e gestos de palavras, não foi?"

"Não zombe de mim assim, Marília. Não zombe... você sentirá minha falta, eu sei. No seu velório eu senti..."

"Perdão, Marília, perdão. Eu não queria ter feito o que fiz... Mas, a culpa foi sua. Por que você fez aquilo?! Era para ser só minha. Só... Só... Desculpa! Não vou fazer isso de novo... eu prometi e você voltou, voltou por mim, não foi?"

***

Eu sei que você tem fome. Mas, não restou mais nada aqui. Entrei em todos os apartamentos, todos os andares do nosso prédio. Nossos vizinhos: mortos. Não há comida. Nada sobrou para te alimentar, meu bem.

Enferrujada, a grade range e abri com dificuldade. Entro.

Poucas vezes ia até Marília.

Ela se põe de pé, e trêmula fica. Eu sei que Marília jamais sairia deste quarto, e isso me tranquiliza.

"Do outro lado da porta, trancados, haveria a desolação e o sofrimento e todos aqueles a acabar com os que são como você, Marília, aqui dentro é apenas nós. Eternamente. Um parte do outro. Protegidos dos monstros-vivos lá de fora."

"Venha, Marília."

O que pode uma criatura entre outras tantas criaturas fazer?

Além de ser devorada...?


"Um vento gelado soprou das montanhas e retalhou a neblina. Por um instante, com um olhar maligno, o sol espiou através das matas nuas (...), infiltrou-se como um coágulo de sangue na fumaça das baterias, e afundou mais e mais, chegando à planície ensopada de sangue."

A rua da primeira bomba - Robert W. Chambers


Capítulo 2 – A Última a Vir

Carne Morta e Outros Contos Folklóricos de Dark FantasyLeia esta história GRATUITAMENTE!