Os Três ou A Lâmina de Um Gume - Parte 1 de 2

52 8 38



"Os cães eram encantados

não podiam ter demora

se viraram em 3 pássaros

alvos da côr da aurora"

História de Juvenal e o Dragão –

Leandro Gomes de Barros


"— Esse teste que você quer aplicar

em mim... — a voz dela, agora, começava

a voltar — já se submeteu a ele?"

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – 

Philip K. Dick




Capítulo 1 – De Mãos Nuas



Sentado no chão, Benício atiçava o fogo, enquanto aquecia os pés.

O início da Noite consumia os gravetos e folhas secas que estalavam na fogueira.

Três pássaros se empoleiravam sobre o homem. Sobre os braços e um ombro. As garras seguravam-se sem ferir, e mesmo com o grande porte os três não pesavam. Escondiam a cabeça debaixo de uma asa e recolhiam um dos pés ao conforto das penas.

Para todos os lados a imensidão e a ausência se estendiam, eram campos de não caber nos olhos, eram noites de não caber em um dia.

Benício era o único humano por quilômetros.

Tirou a carne de caça do fogo. Arrancou pedaços com os dedos, com os dentes, com uma faca. Saciou-se. Jogou os ossos fora. Limpou bem a lâmina nas roupas e a devolveu à bainha de detrás das costas.

Não tinha sono. Desde que colocara o pé na estranha tinha receio de dormir, as sombras escondiam muitas coisas que de dia já eram perigosas.

As chamas dançavam escurecendo mais ainda a noite quanto mais olhava para elas. No entanto, eram hipnotizantes. Um ponto de luz, calor e perigo em meio a outro caos. Era melhor apagar.

Acabou dormindo sentado.

Se o descanso durou meia hora foi muito. Benício se levantou pronto para um combate, acordando os três pássaros.

Berros irrompiam da distância.

Uma histeria de vozes vinha correndo direto para Benício. Ele segurou o cabo do facão. Os gritos pareciam preencher o horizonte, ainda longes, mas nem por isso menos aterrorizantes. Na escuridão da meia noite era como se aquilo não tivesse corpo. Era dor, ódio, nenhuma palavra.

"Junte o que tiver por juntar". Uma das aves falou.

"E corra". Outra completou.

"É um Bradador". A terceira sentenciou já abrindo as asas para voar. "Melhor não lutar contra um desses".

— Fugir? Se eu fizer isso essa coisa pode ferir algum desavisado.

"Você luta contra o que é físico."

Carne Morta e Outros Contos Folklóricos de Dark FantasyLeia esta história GRATUITAMENTE!