Girar e Parar no Meio do Mundo

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Uns pedaços magros de carne assavam em um galão de tinta improvisado como uma churrasqueira. O cheiro ia longe. Os cachorros aproximavam-se pidões. Dona Rê – a louca, a velha imunda, a bozenga – jogava um pedaço ou outro ainda cru para eles, enquanto bebia o café choco que sobrara na garrafa.

Ela puxou o saco de pão do carrinho de feira, abriu a massa de um deles com os dedos, colocou um pouco da carne entre as bandas do pão e comeu.

Já passava das oito, quase nove da noite. Sem sono, a velha Rê passaria até a madrugada acordada naquele banco quase no meio da pequena praça.

A torre da Nossa Senhora dos Mares se erguia acima das árvores, cobrindo-se com a escuridão. Ao pé da igreja um menino olhava para a praça, para os cachorros, para a velha senhora sentada sem ninguém querer chegar perto. Ele atravessou a rua, mordia a língua que tentava lamber os beiços, a mão batia nervosa contra a coxa a cada passo. O rosto encardido tentou sorrir, mas estava com medo.

— Chegue mais. — Rê convidou.

Os cachorros foram cheirar o menino.

— 'Apaz, tenha medo não. São tudo dócil. — Coçou com vontade atrás da orelha de um. — 'Ste aqui é o Papa-mel, companheiro velho. — O menino foi fazer carinho no cachorro também. — Tá vendo? O que foi que eu disse? Ele gostou de você.

Havia uns cinco cachorros. Cinco caudas abanando com a novidade.

Um por um ela os apresentou. Nomes estranhos, alguns impronunciáveis.

— E esse aí é o Cracatau. — O cão foi logo se deitando para ter a barriga coçada.

O menino engoliu em seco cada rota de fuga que se fechava. Estava cercado, e mais cães chegavam para se deitar aos pés de seus chinelos comidos pelo uso.

O cheiro da carne estava de roer o estômago.

No rumo da igreja, ele não viu mais ninguém.

— É... — Começou a falar, mas as palavras caíram de volta. Os outros meninos tinham-no deixado sozinho ali. Deviam rir da cara dele a essa altura.

Uma tapa que a mulher deu no próprio joelho o puxou dos pensamentos.

Com a mão, ela ajeitou a perna em uma posição mais confortável, não parecia ter apoio naquele membro nem ter sangue circulando por debaixo daquela pele, apenas uma cor feia de coisa morta se estendia da coxa até os dedos do pé.

As tripas do menino roncaram.

— Tá com fome? — Rê ofereceu o saco de pão. — Como é que te chamam?

— Sabiá. — Disse baixo, sem se mexer, apenas encarando a comida na mão dela.

— Oxe, pode pegar, eu já comi foi muito — os olhos da senhora pareciam assobiar por baixo do cabelo curto e espetado que caía sobre o rosto —, não vai fazer falta.

Sabiá aceitou.

Carne com pão encheu-lhe a boca. Estava muito bom. Ele pegou assento ao lado da velha, mastigando, as pernas balançando no ar. O olhar curioso andou pelas coisas que a mulher acumulava no carrinho de feira: garrafas, panos, sacolas plásticas, pedaços de papelão, latas. Uma tossida daquelas que servem apenas para chamar a pessoa de volta o fez focar a curiosidade em Rê, vê-la de perto era igual de longe: uma bagunça, um brinco de pena vermelha tentava não se afogar em meio ao cabelo grisalho, as roupas umas sobre as outras faziam um amontoado, não dava para dizer aonde o rasgo de uma das blusas começava e o short terminava (ou seria duas saias?), algumas peças até estavam pelo avesso.

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