Fevereiro, 2017. IV.

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    Dianna nunca acreditou que a primeira impressão era realmente a que ficava. Não tão fielmente. Não até ficar conhecida como a melhor amiga de Luísa Mazzaropi que só se importava com si mesma, com suas roupas e maquiagens.

    Quando Dianna viu Luísa virar a cara para ela, foi como um soco no estômago. Tudo pareceu virar de cabeça para baixo, pois, embora soubesse que Luísa não era uma grande amiga, ela sempre estava ali para ouvir os problemas de Dianna e, quando as coisas se complicavam e faltavam palavras para ajudar, preparava um dia das garotas. Um dia para elas e só delas.

    Luísa não era o tipo de pessoa que gostava de demonstrar que se preocupava – e talvez realmente não se preocupasse –, mas os dias das garotas eram sempre cheios de boas gargalhadas, uma deliciosa mistura de filmes clássicos com novos também. Luísa gostava de ensinar todos os novos truques de maquiagem que aprendera no tempo que haviam tido sem aqueles dias, embora dificilmente os executasse. A loira era fã de maquiagens básicas para ir ao colégio – isso quando usava.

    Dianna era totalmente o contrário. Ouvia atentamente o que Luísa dizia e colocava em prática já no dia seguinte, mesmo que esse dia fosse um dia de semana comum, com aulas chatas e Luísa.

    Era estranho para Dianna não ter mais a constante presença de Luísa em sua vida. Mais estranho ainda porque antes de perdê-la, vivia cercada por festas e pessoas populares. Realmente acreditava que aquelas pessoas gostavam dela, mas agora só conseguia pensar que a toleravam. Por causa de Luísa.

    Além disso, Dianna só tinha Luísa.

    Perder Luísa significava não ter mais ninguém ao seu lado para ouvi-la e realizar dias das garotas apenas para vê-la um pouco melhor.

    Ao entrar na sala naquele dia, esforçou-se mais uma vez para sustentar o olhar de todos, mas principalmente o de Matheus. Ainda estava no terceiro dia de aula e precisava, novamente, se acostumar com o jeito curioso e intrigante do garoto sentado ao fundo da sala.

    Luísa parecia ser a única pessoa que não se importava com a chegada da loira na sala. Era apenas isso que Dianna esperava da antiga amiga. A verdade era que todos desejavam ter um por cento do sangue frio de Luísa.

***

    Sempre que estava sozinha, Dianna gostava de tirar um tempo para si e seus pensamentos confusos. Era uma tortura diária para ela controlá-los durante as aulas por exemplo, então não gostava de ser interrompida quando finalmente conseguia um tempo para deixá-los borbulhando em sua cabeça.

    Ao sentir a presença de alguém lhe observando e, em seguida, sentando-se ao seu lado, a loira franziu o cenho. Estava de olhos fechados e decidiu permanecer, como aviso para que, quem quer que fosse a pessoa ao seu lado, percebesse que estava atrapalhando.

    Não demorou muito para o perfume de Matheus invadir todos os sentidos de Dianna. Era o mesmo perfume desde que o conhecia.

    — O que você está fazendo aqui, Matheus? — perguntou, ainda de olhos fechados.

    — Eu vim em paz. — Percebeu que o garoto levantou os braços e por um segundo achou graça. — Olha, eu só quero conversar com você.

    — Pensei que não se importava mais. — Deu de ombros ao perceber, com o silêncio de Matheus, que havia o afetado.

    — É, mas eu me importo. Me importo porque é você. — Ficou calado por longos segundos, mas, quando voltou a falar, seu tom estava cheio de impaciência. — Caramba, será que você pode, por favor, abrir os olhos?

    — Eu não tenho nada para falar com você, Matheus — rebateu com a mesma impaciência.

    — Mas eu tenho. — Relaxou os ombros antes de continuar: — Você pode me ouvir?

    Dianna sabia que podia muito bem levantar dali e sair correndo; poderia expulsar Matheus aos berros; ou poderia simplesmente fechar os olhos novamente, ele entenderia que ela não queria sua presença ali, seria educado – como ele sempre é – e iria embora. Mas a loira se sentiria a pior pessoa do mundo se recusasse as palavras do garoto. Dianna sabia de toda a fama (atual) de Matheus de ser um egoísta, mas ninguém naquele colégio o conhecia tão bem quanto ela. Dianna sabia de todas as circunstâncias e, embora não concordasse com todas as atitudes do moreno, sabia que ele tinha seus motivos.

    — Diga.

    — Você sabe que eu não sou assim. Você sabe que eu nunca quis ser assim. Você sabe que eu me importo com você mais do que qualquer outra pessoa. — Respirou fundo, procurando alguma expressão decifrável nos olhos de Dianna. — Eu sei que eu errei ao construir tantas barreiras, sei que afastei você. Eu sei que a culpa foi toda minha. — Foi a vez de Dianna respirar fundo, pois tinha certeza de que havia perdido todo o ar existente em seu pulmão. — Eu não espero que me perdoe, não vou pedir para esquecer tudo o que aconteceu e muito menos que finja que não está sofrendo. Eu só queria que você soubesse que eu sinto muito.

    — Eu sei que sente. E é exatamente isso que parte meu coração, Matheus: você sente muito, mas não vai amenizar a dor, não vai fazer as pessoas pararem de me olhar torto e, muito menos, vai destruir todas as barreiras que você mesmo criou. E sabe por quê? Porque seu orgulho é muito maior do que todos os "eu sinto muito" que você é capaz de proferir. Porque você não quer que as pessoas se aproximem e se lembrem que existe uma pessoa de verdade por trás de todas essas barreiras. E eu sinto muito por você, Matheus. Mais do que você sente por mim. Mais do que você sente por si.

    As palavras de Dianna acertaram Matheus em cheio. Simplesmente porque ele sabia que era verdade. Dianna sempre falava a verdade, e às vezes pode ser muito difícil aceitar a verdade.

    Matheus assentiu antes de continuar.

    — Obrigado por me escutar. — O moreno limitou-se a falar, porque não gostava de discutir com Dianna, sabia que seria uma perda de tempo, ela estava certa.

    O sorriso da loira saiu fraco, era a única coisa que podia fazer naquele momento. Estava esgotada de todas as vezes que saiu aos berros com Matheus, e sabia que ele também estava. Haviam crescido mais do que imaginaram em pouquíssimos meses.

    Antes de sair, Matheus retribuiu o sorriso de Dianna, e a deixou ali, em um cantinho da arquibancada do ginásio, perdida em seus devaneios.

    O tempo era realmente algo louco.

    A vida era uma loucura.

    Se pudesse volta no tempo, Dianna não faria metade do esforço que fez para parecer impecável no primeiro dia de aula. Sabia que grande parte da sua "fama" começou naquele dia, e só podia culpar a si mesma por aquilo.

    Poderia ter se sentado com qualquer outro aluno, em qualquer outra mesa, até mesmo sozinha, mas havia sido convidada por Luísa naquele dia, e se sentira um máximo por quase um ano.

    Poderia ter tratado Matheus apenas como o namorado da sua melhor amiga para sempre – porque era isso que ele devia ter sido – e ele nunca teria se tornado seu melhor amigo também. E eles nunca se tornariam tão próximos. E eles nunca se beijariam.

    E talvez, só talvez, aquela tensão não estaria entre eles.

    Talvez Dianna ainda seria a melhor amiga de Luísa.

    Talvez Matheus ainda seria o cara mais legal do colégio.

    E talvez, só talvez, Dianna não seria alvo de olhares tortos.

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