SESSENTA PARTE TRÊS: NICHOLAS

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Eu não lembro de ter desligado o celular, eu apenas peguei o primeiro táxi que encontrei e quando estava próximo da casa do Lorenzo joguei o dinheiro do motorista no banco da frente e a última coisa que eu me lembro é de bater a porta depois de sair e correr até chegar aqui.

Meus pulmões estavam queimando e embora eu não estivesse bêbado, eu estava começando a sentir uma tremenda dor de cabeça. Eu não sabia o que fazer em situações assim, eu sequer queria fazer algo, eu só queria dormir por alguns anos e acordar quando tudo isso tivesse acabado.

A porta da casa do Lorenzo está aberta e eu entendo o motivo disso porque do lado de fora está o carro do serviço médico que provavelmente cuida do seu pai.

Não tem ninguém na sala. E então eu subo as escadas enquanto crio palavras dentro da minha cabeça para conseguir dizer alguma coisa caso o pior aconteça aqui.

— Lorenzo? — eu chamo após alcançar o último degrau, estou próximo ao corredor de quartos. — Tem alguém aqui?

E então ele aparece. Já não está usando a fantasia, seus cabelos aparentam estar molhados e ao invés das roupas sujas está usando uma camiseta xadrez vermelho e preto e uma bermuda jeans também preta.

— Ele ainda está acordado mas temos apenas alguns minutos, não adianta levá-lo para o hospital até porque o movimento seria ainda mais prejudicial. — ele diz enquanto as lágrimas escorrem pelo rosto.

Eu poderia fugir desse problema como sempre fujo de todos os outros, mas eu não quero fugir dessa vez, e ele precisa de alguém.

Meus braços o envolve em um abraço apertado e então sua cabeça é encaixada no espaço que existe entre meu ombro e pescoço enquanto ele aperta minhas costas com as mãos e desaba naquele choro que parece não ter fim.

— Eu estou aqui. — sussurro baixinho. — Isso não vai amenizar a sua dor, eu sei, mas eu estou aqui, eu estou aqui com você.

Seu aperto fica mais forte e eu tenho a sensação de estar quase perdendo o ar com aquilo, mas às vezes é bom perder o ar por alguém.

— Venha conhecê-lo. — ele diz quando afasta o rosto do meu ombro. — Eu quero que ele saiba quem é você.

Embora a situação pareça ser embaraçosa para mim, eu não recuso. Eu limpo suas lágrimas com as minhas mãos e até arrisco a dar um selo em seus lábios antes que ele me guie até aquele quarto repleto de pessoas.

— Minha mãe. — ele diz, apontando com o queixo para ela. — Meu irmão, a noiva dele, a irmã do meu pai, o marido dela, os três filhos e os médicos. — ele aponta para cada um deles. — E aquele é o meu pai.

Ele mantem a sua mão na minha, os nossos dedos entrelaçados. Acho que a sua família realmente aceita muito bem a sua orientação sexual porque enquanto nos aproximamos do seu pai, ninguém se dispõem a falar nada ou tentar impedir.

Ele se ajoelha frente à cama e então eu analiso o estado do seu pai, deveria ser um rapaz muito belo quando jovem, e agora está aqui, eu leito de morte, desviando o olhar do meu rosto para o rosto do próprio filho que já começa a chorar outra vez.

— Nicholas. — ele me chama e eu me ajoelho também. — Pai, este é o Nicholas, o garoto que eu vivia falando para o senhor, ele é uma boa pessoa e a gente se conhece há poucos meses mas estamos tentar fazer com que algo aconteça entre nós dois, eu queria que você soubesse disso. — ele segura a mão do próprio pai e eu tenho medo de que algum movimento acabe machucando-a.

Novamente o seu pai olha para mim, sem movimento de pescoço, apenas com os olhos, e então esboça um sorriso acolhedor, agora eu sei de quem o Lorenzo herdou isso.

— Garoto bonito. — seu pai diz em tom de voz baixo. — Ele é um garoto bonito, vocês formam um casal bonito. — seu sorriso aumenta um pouco mais. — Você tem que cuidar do meu garoto, não deixe ele afundar.

Eu só consigo concordar com a cabeça, porque qualquer palavra que ameaçar sair da minha boca será ridícula ou interrompida por minhas lágrimas que já estão rolando pela bochecha, essa situação é ruim, muito ruim.

— Eu vou esperar no corredor, tudo bem? — eu toco o ombro do Lorenzo e espero que ele entenda o meu pedido para me retirar, eles estavam em família e o clima pesado do quarto estava apertando o meu coração. — Eu estarei lá.

Eu tenho tempo o suficiente para ir no banheiro e voltar, apenas limpo o meu rosto e retiro os machucados que só saíram graças ao sabonete em líquido e esfregadas firmes que dou. Queria poder trocar de roupas também, mas considero isso muita invasão de privacidade se eu for até o seu quarto, então, novamente eu estou no corredor.

São longos minutos ali parado até que eu ouço o primeiro grito, é uma mulher, provavelmente a sua mãe, e eu sei o que isso quer dizer. Ele se foi. O segundo grito é de uma voz masculina, mas ela é totalmente diferente da voz do Lorenzo, é o seu irmão, e então ele aparece na porta com o rosto cheio de lágrimas e o coração totalmente partido.

— Ele se foi, Nicholas. — ele diz em lágrimas. — Eu pedi para ele ficar e ele foi embora, eu estou sozinho, ele me deixou. — a cada palavra um pedaço meu morre também e eu não sei o que fazer além de correr para abraça-lo com força. — Ele se foi, ele se foi. — Lorenzo repete as palavras enquanto me aperta com força, chorando cada vez mais.

— Lorenzo.. — eu tento pensar em algo e quando percebo, já estou em lágrimas também. — Eu não sei o que falar, me perdoe. — meu abraço se torna mais forte, eu queria livra-lo daquela dor. — Ele não te deixou, ele sempre cuidará de você e eu sei o quanto você orgulhou e orgulhará ele.

— Você não entende, Nicholas. — ele olha em meus olhos. — Ele era a única coisa que eu tinha, eu não posso ficar sem ele, eu não posso. — suas mãos encontram meus braços e ele me aperta com força enquanto caí de joelhos e me leva junto. — Está doendo, eu não quero sentir essa dor. — agora suas mãos escondem o próprio rosto e então sobe para os cabelos em seguida.

É a primeira vez que algo assim acontece comigo, e embora eu queria demais permanecer ali, a minha vontade de fugir e me esconder continua sendo a maior de todas, eu queria chorar, eu queria distrai-lo e eu queria fazer qualquer outra coisa ao invés de ficar ali vendo-o naquele estado.

— Eu estou aqui por você, eu sou insuficiente em diversas coisas mas eu prometo tentar ser mais que o suficiente para suprir suas necessidades, você pode contar comigo também, Lorenzo. — minhas palavras saem em tom alto para tentar acalma-lo enquanto seus gritos de "o que eu fiz" e "por que os céus fez isso comigo" ressoam pelo corredor.

E eu permaneço aqui parado.

**

Quando eu olho para os lados eu consigo ver diversos guarda-chuvas em cor preta que nos protege da forte chuva que está caindo e eu me pergunto se isso é normal, afinal, aqui em São Francisco os dias são sempre quentes ou abafados.

Eu nunca vi tantas pessoas em um lugar só, aparentemente o pai do Lorenzo tinha uma grande família e bons amigos, esse é o motivo do cemitério estar mais do que cheio, talvez, se juntássemos todas as lágrimas, poderíamos criar uma nova tempestade que duraria de dois ou três dias, aposto.

Ele está ao meu lado sem dizer nada, e conosco estão a Alison, a Kimberly, a Mia e o Michel, até algumas pessoas do colégio arriscaram a vim também.

Eu não consegui dormir e o processo para o enterro foi o mais rápido possível já que a família tinha dinheiro o suficiente para fazer isso acontecer da melhor forma. Lorenzo permanecia em um silêncio terrível e aquilo estava me preocupando demais, eu não baixei meu óculos escuro uma vez sequer, e eu sabia que não estava fazendo sol para eu precisar usa-lo.

Quando o caixão finalmente é deixado lá embaixo, os principais familiares se aproximam para jogar os primeiros grãos de terra por cima, o primeiro é o Lorenzo, que pega uma boa quantidade de terra nas mãos envolvidas por luva preta e então joga dentro do buraco, o próximo é seu irmão e a última pessoa é a sua mãe.

Uma família destruída.

— Eu sinto muito. — eu sussurro quando ele volta para o meu lado.

— É. — ele me responde. — Eu também sinto muito, Nicholas.


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