Capítulo 1

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Cidade de Tibax, Dezembro de 1999

Nossa casa era a única da rua que não tinha uma guirlanda na porta. O panetone, que estava em promoção em todos os supermercados da região, nunca chegou a ocupar um lugar em nossa despensa. A ceia, como em todos os anos, não aconteceria. Pois não existia Natal no número 76 da Alameda Saranate.

Apesar da tentativa da vizinhança de trazer mais alegria à rua com seus enfeites e luzes natalinas, a forte chuva deixava tudo com um ar agourento. Poucas vezes na vida vi chover como naquela noite. Ouvi trovões que, rasgando o céu em manobras ofensivas, tentavam trincar as janelas encardidas da sala de TV. Mas garanto que nenhum estrondo era mais tenebroso do que os gritos que vinham do andar de cima da casa.

Eram gritos que reverberavam com violência em cada centímetro quadrado daquelas paredes velhas, com tinta branca descascando de cima a baixo. Permita-me agora contar, nos mais sórdidos detalhes, essa história de descompassos, pesadelos e amores conturbados.

Ela, uma mulher submissa, impotente, habituada com hematomas e doses cavalares de medo. Ele, um tirano alcoólatra, ex-presidiário, de inescrupulosidade nata. Quanto a mim, o fruto podre de um estupro.

Assim como as vítimas do holocausto eram tatuadas com códigos, que, para os nazistas, identificavam-nas como impuras, eu também carregava a impureza de um crime no meu DNA. O esforço diário de minha mãe de fingir que não existiam semelhanças significativas entre mim e Jordan, meu pai, fossem elas físicas ou de personalidade, nem sempre era bem-sucedido. A herança genética estava estampada no meu rosto. Os olhos de meu pai, cor de ouro velho, que flamejavam de raiva quando ele estava bêbado, eram os mesmos que eu via no espelho quando tinha vontade de vê-lo com o pescoço pendurado no teto por uma corda, com seu cadáver balançando de um lado para o outro.

O jeito que titubeio os dedos no queixo quando estou aflita é exatamente o que ele fazia quando se desassossegava por alguma razão. Não sei como ele se comportava na cadeia – nunca cheguei a visitá-lo, e tampouco tive interesse em fazê-lo -, mas eu apostaria dois maços de cigarro que ele fazia esse mesmo movimento dentro da cela, madrugadas à fio, quando planejava fugir.

Meu pai é um assassino. Antes de macular essas páginas escrevendo sobre como isso aconteceu, porém, preciso retroceder e contar sobre como ele conheceu a minha mãe. Ela e o Chris, o irmão do meu pai, eram só mais um casal de namorados; iam ao cinema, frequentavam lanchonetes, transavam no banco de trás de um Gordini azul-pastel velho e ouviam Bee Gees nos sábados à noite, regados a cerveja barata e planos (nunca concretizados) de cruzar as fronteiras do país com uma mochila gorda nas costas.

Chris e minha mãe se amavam. Um amor imprudente, mas legítimo, contaminado pela aversão de Jordan. Meu pai sempre teve uma relação impetuosa com o irmão. Discutiam, xingavam, agrediam-se, quebravam os narizes e algumas portas de guarda-roupa. As injúrias, dizia minha mãe, eram tão bárbaras quanto os socos. Jordan tinha 21 anos quando Chris (20) e minha mãe (18) começaram a namorar.

Jordan já bebia muito naquela época. Começou a beber cedo, de modo a suprir o vazio de ter uma vida tão solitária, sem amigos, namorada ou uma mãe que se importasse – esta se ocupava demais gerenciando uma boate, sendo mais corrupta do que propriamente bem-sucedida. Quanto ao pai dele, meu avô, morrera de câncer quando os filhos ainda eram crianças. E há quem diga que a viúva nunca sentiu falta do marido.

Quem vive no limite sabe que, cedo ou tarde, a bomba estoura. Jordan também sabia disso. Chris e mamãe estavam na casa dele, sozinhos. Não esperavam que meu pai aparecesse tão cedo, porque ele mesmo anunciara que estava indo encher a cara para não dar uma surra nos dois. Mas ninguém contava que ele fosse esquecer a carteira.

Temporada de SuicídioWhere stories live. Discover now