Capítulo 5.5 - Verdades (Lady)

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Lucas passou pelas portas da minha casa e eu imediatamente comecei a me sentir esquisita. Estava tudo acontecendo muito rápido. Tínhamos tirado o garoto da prisão onde ele erroneamente foi colocado, o levado para o hospital onde ele deu um susto em todos e simplesmente apagou na maca e agora Hugh, nosso mordomo, estava ajudando meu pai a carregar Lucas para dentro da minha casa!

Eu entendia a necessidade. O menino ainda estava desacordado. Ele tinha acordado no hospital, entendido a situação e aceitado uma carona para casa, quando os médicos o liberaram. Ele parecia até mais calmo depois que pegamos os remédios que ele precisaria tomar e ainda mais tranquilo quando meu pai disse para ele não se preocupar com a bicicleta destruída, que ele iria resolver com a empresa responsável. Estava tudo sob controle!

Porém, era uma verdade que Lucas parecia horrorizado toda vez que alguém chamava meu pai de Vossa Alteza ou que alguém abria as portas para mim, me cumprimentando como Lady Jenny. Mas, era compreensível. Seus documentos diziam que ele era brasileiro e, até onde eu já tinha estudado de história do Brasil, eles não tinham muitos Duques. Quer dizer, nós também não. Não que contem, pelo menos. Os títulos tinham se desvalorizado e foram comercializados com o decorrer do tempo, mas Rei Richard, assim como seu pai fizera e a Rainha-mãe ainda concordava, fez questão de manter pelo menos uma família nobre de cada título por perto. A minha era a família de Duques. Às vezes eu preferia não ser nada.

Enfim, Lucas estava bem. Quer dizer, bem ele não estava. Mas ele foi capaz de andar pelo hospital afora sozinho, entrar no nosso carro e até dar um sorriso fraco. Era verdade que ele não falava muito. Talvez tivesse vergonha do seu inglês? Pelo pouco que ele já tinha falado, dava para ver que não tinha nada de errado com o inglês dele. De repente era só o choque? Eu não sei. Eu sei que, para tentar compensar o silêncio, meu pai estava tagarelando.

Era outra verdade que ele estava grato. Dizia que se não fosse por Lucas eu poderia ter sido sequestrada ou pior. Ele se recusava a falar muito a palavra morta. Compreensível, considerando nosso histórico familiar. Talvez por isso ele estivesse falando tanto. Porque também estava traumatizado com a situação. Eu, que era a maior envolvida em tudo, só queria que aquela noite acabasse. E ela estava acabando! Se não fosse a boca grande do meu pai...

Só que aí no carro, antes que Lucas pudesse falar seu endereço, meu pai começou a falar sobre o que os médicos tinham dito que aconteceu com ele (esse é o problema de ter um pai médico, que acha que todo mundo entende e percebe a medicina da mesma forma que ele). Lucas começou a ficar pálido na primeira vez que ele disse hemorragia interna. Eu estiquei minha mão e segurei seu braço, tentando conter suas explicações, mas quando meu pai entrava no modo professor, era impossível contê-lo. Conclusão? Antes mesmo dele explicar que tinha sido uma hemorragia leve e já contida, ocasionada provavelmente pela bendita bicicleta, Lucas já tinha apagado de novo.

― Que fracote! ― James deu uma gargalhada.

Eu olhei enviesada para ele, de saco cheio. Ele tinha sido o maior idiota a noite inteira, quase irreconhecível. Costumeiramente eu gostava muito dele, mas em poucas horas sua pontuação no meu ranking de pessoas que eu gosto tinha caído vertiginosamente.

Meu pai, achando que o desmaio não tinha nada a ver com a menção a hemorragia interna e tinha alguma coisa a ver com a hemorragia em si, começou a berrar que devíamos voltar para o hospital e eu tive que interferir antes que Roger, nosso motorista, fizesse o retorno de qualquer maneira e corresse de volta para aquele lugar horrendo. O mesmo hospital que minha mãe tinha morrido. Eu queria passar o menor tempo possível dentro dele e, naquela noite, já tinha passado tempo demais.

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