Capítulo 11

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Pablo abriu os olhos e, de um lado, viu o relógio digital marcando 9h30; do outro lado, viu dois olhos bem arregalados encarando-o como se tivesse feito alguma coisa errada. Coçou a cabeça e disse:

– Não vamos queimar as etapas, ok?

Murilo deu de ombros com aquele ar de quem não recebeu uma resposta satisfatória e foi se aninhar debaixo da cadeira mais próxima da janela.

O quarto do hotel não era muito grande, mas tinha tudo o que era necessário: uma cama, uma mesinha com uma cadeira, um armário e um chuveiro. O estilo era sóbrio e funcional, onde menos é mais, beirando uma ausência de graciosidade quase assustadora. Paciência. O importante é que ele ficava estrategicamente localizado entre o hospital e a casa dos pais de Juliana, quase no centro da cidade. Se precisasse ir para qualquer um desses lados, num piscar de olhos logo estaria lá.

Foi tomar banho e, enquanto a água morna começava a cair, ficou relembrando o grude do filho na noite anterior, em como o menino se agarrara nele como se fosse o último ser humano neste planeta que poderia guiá-lo através das estradas tortas do inferno rumo ao paraíso. E, de certa forma, seu filho tinha razão, pois afinal de contas não é justamente esse o papel dos pais na educação dos pequenos? Se eles irão conseguir chegar lá é outra história, mas todos têm a obrigação de tentar.

Pablo até pensou em trazer o filho para dormir com ele e com Murilo no hotel, mas sabia que isso seria uma missão quase impossível. Dormir por lá junto com Pedro, estava completamente descartado e os pais de Juliana não o decepcionaram. Seguindo à risca o estilo dela, sequer mencionaram em momento algum que ele poderia ficar por lá com o filho. Era melhor mesmo deixar as coisas como estavam, e assim ele permaneceu sob a choradeira da mãe e o olhar frio do pai até a hora em que o menino dormiu e ele finalmente pôde sair de fininho.

Ao terminar de tomar banho e trocar de roupa, deu uma olhada no smartphone e lá piscava uma nova mensagem. Deu um clique para ler.

E aí, rapaz, está na área? Quando puder, me liga. Abs. Paulão.

Olhou para o dorminhoco Murilo e sorriu. Sentou-se na cama e ligou para ele.

– Alô.

– É o pilantra do Paulão?

– Grande Pablo! Tudo bem, rapaz?

– Mais ou menos, né?

– Pois é, imaginei que você estaria na cidade por conta do acidente, e ontem até encontrei o Sr. Roberto, que me confirmou que você estaria vindo. E a Juliana? Já está melhor?

– Cheguei tarde ontem e só poderei fazer a visita às 16 horas, mas ela continua lá na UTI. Os pais dela me disseram ontem que o estado ainda é muito grave, mas o quadro permanecia estável.

– Mas vai melhorar, pode apostar nisso!

– Sim, com certeza que vai! – deixou escapar mais por empolgação do que por convicção.

– E o moleque? Está aí contigo?

– Está arrasado, mas não está aqui comigo no hotel. Ficou com os avós e daqui a pouco vou lá para almoçarmos juntos e depois seguirmos para o hospital.

– Beleza. Em qual hotel você está?

– No Queens, perto do centro.

– Que tal se eu passasse aí agora para trocarmos uma ideia como nos velhos tempos antes de você sair para almoçar?

– Tranquilo, mas só se for agora, ok? Te espero lá no saguão.

– Valeu!

O telefonema de Paulão até que veio em boa hora para ajudá-lo a espairecer um pouco a cabeça, pois ainda não haviam se passado 48 horas e a sua vida já dera duas guinadas que ele ainda nem teve tempo de digeri-las.

Os dois se conheceram nos tempos da USP através do quadro de avisos da lanchonete que ficava ao lado do prédio onde eles tinham as aulas. Pablo, recém-chegado de Ribeirão, logo após ter assinado o contrato de aluguel de um pequeno apartamento de dois quartos no bairro do Butantã, tinha afixado ali um pedaço de papel com o seu telefone e os seguintes dizeres: "Aceito um estudante de economia que tenha vindo do interior para dividir apartamento". E então, em menos de 24 horas, o destino já tinha se encarregado de colocá-los frente a frente morando sob o mesmo teto, e assim permaneceram durante cinco anos até a formatura.

Ao contrário do estilo totalmente low profile de Pablo, Paulão se tornou muito bem conhecido em todo o meio estudantil por conta da organização das inúmeras festinhas realizadas tanto no campus como fora dele, e que acabaram dando tão certo que ele virou um empresário bastante conhecido no meio, abrindo posteriormente algumas boates tanto em São Paulo como em Ribeirão. Pablo no início até o ajudou a montar no computador os materiais de divulgação das primeiras festas, mas não só não quis entrar como sócio nesse negócio como também de vez em nunca aparecia nessas festas, preferindo ficar em casa lendo seus livros, ouvindo Ramones e Neil Young, e escrevendo suas poesias.

Apesar de promover e estar sempre envolvido com festas, Paulão não fazia o estilo vagabundo e muito menos beberrão, pois, assim como Pablo, até que tentou, mas chegou à conclusão de que não gostava de álcool; o que ele gostava mesmo era de passar o tempo livre puxando ferro na academia e, já sendo um sujeito de quase dois metros de altura, com a malhação diária estava quase se transformando no próprio Incrível Hulk. Mas o que de longe parecia ser apenas mais um playboy fanfarrão de academia, bastava um minuto de conversa para demonstrar que possuía um cérebro diferenciado, que gostava muito de conversar sobre negócios e literatura, o que sempre rendia ótimas conversas com Pablo. E, apesar de promover festas com todos os estilos musicais, Paulão também gostava muito de rock e punk rock, e nas noites em que não havia festas, ele e Pablo varavam as madrugadas assistindo a todos os documentários possíveis sobre o tema, conversando sobre música e, é claro, ouvindo muito som.

Apesar de ambos serem bastante inteligentes e possuírem gostos musicais e literários similares, não só o estilo e o perfil eram diferentes, mas também o relacionamento com as mulheres. Enquanto Paulão toda semana lhe apresentava uma namorada diferente, Pablo quase nunca tocava no assunto e raramente era visto com uma, o que levou Paulão no início a desconfiar de que ele fosse homossexual, mas depois de um tempo convivendo juntos entendeu que ele era apenas muito reservado e deixou o assunto para lá – principalmente quando depois, a muito custo, descobriu sua história com Juliana, Pedro, Cristina e Carol.

Apesar de ele nunca falar sobre o assunto, Paulão tinha certeza de que o nascimento do filho era uma ferida mal resolvida que tinha a ver com esse lado quase que ermitão dele, sendo que durante algum tempo até que tentou ajudá-lo de várias formas, porém a resistência de Pablo era um muro de dimensões intransponíveis. Ele demorou um pouco para entender isso, mas depois de inúmeras tentativas frustradas de levá-lo a eventos e apresentar-lhe várias meninas, que até poderiam ter se transformado em namoradas fixas que talvez o tivessem ajudado a superar essa espécie de trauma que ele fazia questão de carregar sozinho, finalmente ele entregou os pontos e deu tempo ao tempo deixando o barco seguir sereno o seu caminho. E talvez tenha sido esse o ingrediente principal que fez com que o improvável relacionamento entre esses dois perfis distintos tenha se transformado numa amizade sincera e forte como uma rocha.

Se esquecer seu coração lá em casa, não o devolverei!Onde as histórias ganham vida. Descobre agora