Papéis da Verdade - Consciência Negra

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Ano de 1532.

Eu e vários outros africanos estamos em um navio, que pelo que ouvi se chama navio negreiro, e nem sei para onde ele vai. Um povo de pele clara nos trouxe para cá, resistimos, mas não adiantou.

Uma coisa que está me incomodando, além das péssimas condições em que estamos, é o fato deles estarem chamando todos nós de negros. Eu nem sei o que são "negros"! Aqui têm Bantos, Haúças, Niams, Fulas... Mas ao invés de nos chamarem de acordo com os nomes de nossas nações, chamam todos de negros!

Pelo menos achei esse pedaço de papel em que estou escrevendo e uma caneta-tinteiro jogados em um canto do navio, por sorte a caneta está com tinta. Alguém deve ter a esquecido aqui, junto com o papel.

Fomos os primeiros africanos, parece que virão mais... Coitados deles terão que passar pelo mesmo que nós. Pelo menos meus pais não vieram. Eles terão mais um tempo de paz, tomara que fujam e não tenham que passar pelo mesmo que eu.

Sempre me lembrarei de minha mãe... "Zarina, você é forte. Não se deixe abalar por isso." Ela dizia sempre que me via chorando. Também sempre lembrarei do meu pai, adorava quando ele me chamava de "Minha garotinha." Mesmo eu já tendo 19 anos.

Ano de 1540.

Quanto tempo que não vejo este papel. O escondi logo depois que parei de escrever pelo fato da tinta restante na caneta ter acabado, por sorte o trouxe comigo quando saí daquele navio. Demorou meses até chegarmos no Brasil. Viemos para cá trabalhar, para virarmos escravos na verdade. Não aceitamos isso pacificamente.

Regularmente ocorrem agitações na fazenda que eu estou, deve acontecer nas outras também. Pelo que ouvi dizer, os escravos que fogem vão para florestas e criam quilombos - lugares que vivem apenas escravos fugitivos - onde tem liberdade para fazer rituais, festas e falar em nossa língua nativa, coisas que são proibidas aqui. Mas mesmo com as proibições, ocultamente, fazemos alguns de nossos rituais e festas.

Vieram mais africanos depois de nós, muitos morreram no caminho, tanto na embarcação que eu estava quanto nas outras. E continuarão vindo. Continuamos sendo chamados de negros, descobri que é por causa da cor de nossa pele.

Trabalhamos bastante em troca de nada. Se desobedecermos aos senhores somos punidos, isto é mais um dos fatores que influencia as fugas. Mas nunca tive coragem de participar delas. Ainda mais agora que estou grávida.

Sim, estou grávida! Mas mesmo assim trabalho tanto quanto antes... Irei guardar este papel e instruir meu filho, ou filha, para guardar também para seu filho e por aí vai, e para, se possível, escreverem nele.

Ano de 1850.

Minha mãe me deu este papel, ela disse que foi de uma antepassada que começou a escrever nele e mais ninguém quis escrever. As coisas não estão diferentes do que ela escreveu, mas hoje teve uma mudança. A Lei Eusébio de Queiroz foi aprovada, finalmente a abolição do tráfico negreiro! Uma mudança pequena, mas uma mudança.

Espero que ocorram mais mudanças e que este sofrimento que estamos vivendo acabe!

Já já terei que guardar o papel, sim, eu guardarei e darei para meus filhos. Se depender de mim esse papel passará por gerações.

Minha mãe sempre diz que não posso deixar nenhum senhor me ver escrever, a grande maioria dos escravos são analfabetos e, por algum motivo que eu não sei, não podem saber que somos alfabetizados, mesmo ganhando alguns privilégios quem souber ler e escrever.

Desde minha antepassada, Zarina, era assim. Somos sortudos por saber ler e escrever, sempre ouço isso de minha mãe, mas não podemos deixar ninguém saber para não trabalharmos lado a lado com senhores. Acho isso desnecessário, mas quando eu tiver algum filho irei ensiná-lo a não contar que é alfabetizado. Irei obedecer minha antepassada quanto a isso, acho que ela tinha medo ou só queria continuar uma "comum", mesmo sabendo que seria inteligente contar para ganhar privilégios, irei obedecer Zarina – e minha mãe.

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