Capítulo Único.

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Eu não faço a menor ideia de como o mundo apodreceu. Quando nasci, o ar já era tóxico e os céus cobertos de nuvens cor de cobre. João, o homem que me criou, sempre que enchia a cara costumava falar sobre o passado, quando o céu era azul e as nuvens brancas, quando havia árvores na Terra e a luz do Sol incidia sobre todos, quando um tapete de estrelas podia ser visto e apreciado quase todas as noites. "Afortunados foram os que viveram nessa era", ele sempre gritava com a garrafa na mão e os olhos arregalados. Para mim esse mundo não passava de história antiga.

Na maioria das vezes, João era um chato. Ele vivia querendo enfiar na minha cabeça o que era certo e o que era errado, sempre citando como a humanidade era valorosa no passado. Ele vivia do passado, eu não. Mas de qualquer maneira, aquele velho era tudo que eu tinha.

Um belo dia meus pais perderam o emprego, e não tiveram mais como pagar pelo aluguel e pelo oxigênio. Eu era um um pirralho e não entendia droga nenhuma, mas sabia que algo estava muito errado. Meu pai andava tenso, pegando qualquer serviço que nos garantisse pelo menos um pouco de ar, água e comida. O mais complicado era o oxigênio, que era muito caro, e sem a CESV, a empresa que fornecia quase tudo, tínhamos que viver de cilindros de ar.

Após o despejo, passamos a morar no Buraco do Carrapato, uma invasão que virou o bairro mais miserável da cidade. Nossa casa era um grande caixote de isopor que meus pais selaram e transformaram em barraco. Não sei como, mas eles conseguiram um velho purificador que nem de longe chegava perto do sistema da CESV, mas pelo menos tornava o ar respirável quando funcionava. Aquele lugar não era seguro, não teríamos nenhuma chance se o UTAU aparecesse, convivíamos com baratas mutantes e outras nojeiras, mas era a nossa casa.

No início as coisas não estavam tão ruins, mas aí os trabalhos temporários desapareceram e meu pai ficou a ver navios. Rosa, minha mãe, queria ajudar, mas tinha que cuidar de mim e manter o purificador funcionando. Então, no desespero, ele começou a praticar pequenos furtos, os quais chamava de "bicos". E em um desses bicos acabou se metendo com gente graúda, com quads, os ricaços. Deram cabo dele. Minha mãe procurou a polícia mas foi uma grande perda de tempo. Quando encontraram o corpo, ele já estava quase todo corroído pelos vapores da madrugada, sem roupas, sem o tanque de oxigênio e com o rosto desfigurado, pois arrancaram brutalmente seu respirador; só deixaram o neurochip,  uma velharia inútil.

Aquilo acabou com Rosa, e a cada dia a revolta dela foi aumentando. Começou a arrumar confusão na rua, se envolveu com gente perigosa, passou a desafiar as autoridades. Então ela desapareceu, sumiu, simplesmente se foi. Fiquei desnorteado, sozinho e apavorado. Durante um breve tempo eu consegui sobreviver com as cápsulas de oxigênio e comendo rashi reciclado, um tipo de arroz verde muito popular nas ruas, e que meu pai também aceitava como pagamento. Mas o oxigênio não durou muito, e não fazia a menor ideia de como conseguir mais. Quando o último cilindro esgotou-se, eu fiquei desesperado. Saí do barraco sugando as últimos moléculas de ar do respirador. Estava escuro e havia poucas pessoas na rua, todos me ignoraram. Comecei a fraquejar e, sem sustentação, me atirei na lama imunda. Tentei segurar o fôlego o máximo que pude, esperando por algum milagre, mas não teve jeito; arranquei o cilindro vazio e inspirei com vontade o ar tóxico da rua, sentindo a garganta queimar. Muitos passaram por mim e não fizeram nada, como se eu não estivesse ali. Depois descobri que isso era muito comum. Então, quando eu já sentia uma queimação no peito e dificuldade para respirar surgiu o João, que por algum motivo qualquer me tirou da lama e me levou para sua casa.

Sobrevivi, mas meu corpo foi afetado para sempre. Tive sérios problemas de desenvolvimento que me deixaram com um aspecto horrível: magreza extrema, ausência de pelos, musculatura atrofiada, pele ressecada; eu parecia uma caveira, e por essa alcunha funesta fiquei conhecido nas ruas; na boa, eu era o perfeito retrato do mundo à minha volta.

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