CINQUENTA E OITO PARTE UM: NICHOLAS

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Se eu pudesse me mudar para qualquer outro lugar, eu escolheria viver para sempre dentro dos seus braços, sentindo o seu cheiro de álcool barato e cigarro de menta.

Eu estava destruído. Logo eu, que sempre acreditei em finais felizes onde todos os personagens viviam felizes para sempre e depois de alguns anos eles se reencontravam para compartilhar seus momentos bons, onde todos ririam, mostrariam fotos e prometeriam não se afastar mais.

Estávamos no final. Por que a felicidade não estava brotando para a gente também? Por que tudo estava dando tão errado? Por que estávamos mais mortos que flores que secam por falta de água ou excesso de sol? Éramos tudo, éramos um só.

Após aquele abraço acolhedor, Lorenzo se afastou o suficiente para olhar em meus olhos e então me mostrou aquele sorriso perfeito que só ele tem. Eu me sentia tão seguro nisso, em seus braços, com o teu sorriso. E fazia pouco tempo, mas o problema é que minha carência é tão grande, que eu me apaixono rápido demais.

— Envie uma mensagem para o seus pais informando que você está aqui e me espere sentadinho nessa cama, Senhor Nicholas Danvers. — ele aponta para a cama, dessa vez o edredom é preto com o símbolo do Batman em branco, o que me deixa extremamente feliz por saber que ele também gosta de coisas desse tipo. — Eu já volto. — e então ele some depois de passar pela porque que dá acesso ao banheiro.

Eu estou tentando não desabar depois do que aconteceu, mas é sempre assim. Eu faço as coisas por impulso e fico me arrependendo depois. Eu não deveria ter socado o Derek, eu nunca deveria ter feito aquilo, e talvez, ele jamais me perdoe.

Eu preciso entende-lo, eu tenho que entender. Éramos amigos antes de tudo, e ele era o irmão que eu sempre desejei e acabei ganhando, mas não da mesma mãe ou do mesmo pai, esse tipo de relação não deviria existir entre nós dois, e eu me sinto totalmente frágil por permitir que o desafio do Adam alterasse completamente toda a minha vida. E se eu não tivesse aceitado o desafio? As coisas estariam diferentes agora?

Eu deixo meus pés no chão, ainda dentro dos sapatos, e então me jogo para trás, me deitando na cama do Lorenzo e admirando aquele teto preto com desenhos de estrelas e planetas. Ele é um universo novo, e eu estou ansioso para descobrir o que existe dentro de cada mundo que ele esconde.

De olhos fechados, eu torno a voltar para aquele pensamento: E se tudo fosse diferente em um universo paralelo? Lá, com o meu "não" como resposta para o desafio proposto, eu estaria namorando a Kimberly, o Derek estaria feliz com a Yuna, o Tony não teria tentado fazer sexo comigo e o Justin não trairia a nossa amizade de um ano e alguns meses, até a Alison estaria bem, não que ela esteja mal.

Não fico preso nisso por muito tempo, porque o Lorenzo logo me chama e me desperta, me fazendo sentar outra vez para ver o que ele traz em mãos.

— Eu prometo que não vai arder muito. — ele diz, e então se ajoelha entre minhas pernas e antes mesmo que eu permita, segura a minha mão machucada. — Eu só vou limpar, passar um pouco de remédio e colocar um curativo. — ele olha para mim, e então abre a maleta de primeiros socorros com a mão livre. Primeiro ele limpa o ferimento com lenços umedecidos, depois passa algodão, e então o remédio que queima o local, me fazendo morder os lábios.

— Puta que pariu. — eu reclamo e tento puxar a mão mas ele me segura.

— Você deveria ter pensado duas vezes antes de ter feito isso, porque a sua atitude foi de longe a mais infantil. — ele permanece me olhando, e eu não tenho respostas para a sua repreensão, ele está certo. — Pronto. — ele pisca após colocar dois curativos no local. — Você quer tomar um banho? Ou a gente pode se trocar e fingir que tomamos um, você decide.

Eu escolho pelo banho, eu precisava da água fria molhando todo o meu corpo.

Novamente Lorenzo me empresta uma de suas roupas, e novamente eu estou usando seu moletom de Sex after Cigarettes.

O banho é rápido, isso porque eu me lembro que eu não estou em minha casa para demorar tanto assim. Pelo menos a água me acalma, é como se ela lavasse a minha alma e me livrasse de toda a dor que estou sentindo em meu coração. Ele já disse que ama a Yuna, por que eu demoro tanto para me entregar para o Lorenzo? Eu não deveria ter esse medo, não mais.

— Obrigado novamente. — eu falo após sair do banheiro, sua calça moletom coube muito bem em mim, e por ser preta, casa perfeitamente com a parte de cima. — Obrigado por ser tão amável e cuidar de mim.

Sua resposta é sempre um sorriso, e eu percebo que durante o meu banho, ele aproveitou para trocar de roupas também, agora usa uma blusa xadrez em cor preta que está aberta nos primeiros botões, mostrando parte do seu peitoral bem feito, algo dentro de mim começa a formigar, tenho vontade de abrir o resto dos botões para descobrir como seu corpo é. A camisa casa muito bem com seu shorts moletom acinzentado, e embora não seja um tipo de roupa provocativo, eu não consigo evitar os meus pensamentos maldosos.

— Eu já te disse, Nicholas. — ele se levanta da cama e se aproxima de mim. — Isso é o que os amigos fazem, agora por favor, feche seus olhos. — ele me pede e eu fico extremamente confuso.

— O quê?

— Você confia em mim, não confia? — ele passa a língua pelos lábios.

E eu fecho meus olhos.

Logo eu sinto o Lorenzo por trás de mim, seu peitoral firme está contra minhas costas, e então suas mãos encontram meus olhos, tampando-os para que eu não consiga ver para onde ele começa a me levar.

— Lorenzo.. — tento falar sem rir. — Eu vou cair ou me esbarrar em alguma coisa se você continuar fazendo isso, eu já não sou muito bom de olhos abertos, com os olhos fechados a situação só piora.

Ele não me responde, só continua caminhando até pararmos em um lugar que eu suponho ser a escada.

— Você pode abrir os olhos para descer os degraus comigo, mas quando chegar lá na sala, eu quero que você feche-os novamente. — ele me pede e eu obedeço, descendo as escada do seu lado e fechando meus olhos outra vez quando meus pés tocam o piso da sala.

Novamente ele me segura por trás, fechando meus olhos e me encaminhando para algum lugar que deduzo ser os fundos da sua casa porque após o barulho da porta, uma brisa boa envolve o meu corpo e eu consigo sentir o cheiro da grama.

— Essa é minha casa na árvore. — ele diz, afastando as mãos dos meus olhos. — E você é o meu convidado para subir nela essa noite. — ele me entrega a mão e eu aceito. — Mas enquanto você estiver lá em cima, toda a tristeza que existir dentro de você deve ser mantida aqui embaixo, me promete isso?

Eu entrelaço nossos dedos ainda mais, e meu olhar é levado para aquela casa no alto da árvore, um sorriso se forma em meu rosto, eu sempre quis ter uma casa na árvore mas nunca tive uma árvore para ter uma casa na árvore.

— Eu prometo. — respondo.

**

Lorenzo é o primeiro a subir e me puxa quando faço isso logo em seguida. O espaço dentro da árvore é o suficiente para apenas três pessoas, e bem organizado para realmente ser dele. Tem um tapete em cor branca no chão, dois puffs, algumas revistas em gibis e coisas do tipo, mas o que realmente me chama a atenção é o que está em cima de uma pequena mesinha de madeira.

— Como você trouxe toda a comida para cá? — eu questiono, com um sorriso nos lábios. Eu havia prometido deixar a tristeza de lado, lá embaixo.

— Eu tenho meus dons — ele diz. —, mas na verdade, minha mãe fez isso por mim antes de sair para o campeonato, eu iria pedir para você vim aqui de qualquer forma, então eu já deixei tudo pronto.

— Você é incrível, sabia? — estamos sentados frente à frente, e minhas mãos estão em seus joelhos. — Eu acho que o resto das pessoas deveriam tentar ser igual a você, nem que fosse só um pouquinho.

— Eu acredito que assim o mundo seria uma chatice, Nicholas. — ele esconde o rosto enquanto ri. — Tente imaginar todos usando preto e vivendo sem contato algum uns com os outros? — ele leva uma das mãos até o queixo e faz uma pose de pensador.

É, a ideia seria terrível.

Depois do Ritual (Romance Gay)Leia esta história GRATUITAMENTE!