Capítulo 1 - E nasce um livro!

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Era um dia como outro qualquer. E então, sua audição direita sumiu. Anos depois, a esquerda também se foi. Você ficou total e irreversivelmente surda aos vinte e sete anos de idade. Você estava no final da faculdade, prestes a fazer a prova do Mestrado. Estava, ainda, terminando um curso profissionalizante de Dança, enquanto se recuperava emocionalmente de uma traição após nove anos de relacionamento. Uma época em que você tinha tantas esperanças, outros tantos sonhos e, de repente, passou a sentir que tudo foi roubado. 

Como é se acostumar a não ter som? Como é aprender a se comunicar de novo? Como é ficar surda, estar surda e não conseguir ser surda? 

Meu nome é Nuccia, muito prazer. Desculpe-me por corrigir sua pronúncia. Não é "Nucia" ou "Nussia". O nome é italiano; repita, pronunciando o CC como TCH. Não estou brincando, fala aí: "Nutchia". E capricha no NU, como se tivesse um acento agudo, porém não escreva o acento. Italiano é uma língua peculiar. 

O nome mesmo é Nuccia Nicole. Todo mundo na família tem nome composto; é chique, pense desse jeito. Nasci em... tenho mesmo que dizer? Enfim, nasci há alguns anos, basta saber que já passei da infância e adolescência, mas não parei de rir descontroladamente ou de me apaixonar. Pelo menos, adquiri responsabilidade, um senso de organização (quase TOC), grande respeito pela vida, uma incomensurável paixão por livros e seriados e uma queda por cafajestes. Também adquiri uma cadela São Bernardo, uma jabuti-fêmea, um coelhinho, 254.326 botas de cano alto e um tumor benigno do sistema nervoso. 

Algumas pessoas não me chamam de Nuccia. Para elas, sou Karissa Kamra. Nojento, não é? Sou bellydancer, dançarina do ventre. Totalmente desconhecida no meio, com um único curso profissionalizante, sem registro no Sindicato de Dança, mas com aprendizado constante via aulas semanais, workshops e aulas avulsas, vários concursos em grupo e com algumas apresentações individuais. 

Ser dançarina é uma carreira, mas não é minha profissão. Eu sou cientista, uma Bióloga com Mestrado e Doutorado em Bioquímica. Nesta carreira, em que iniciei ouvindo e consagrei como surda, tenho artigos científicos publicados e outros em preparação, além de um capítulo de livro. Participei de vários congressos no Brasil e no exterior, já fui convidada para assessorar um Simpósio. Mas, em ciência, isso não é nada. Em alguns casos, "quantidade" tem mais influência do que "qualidade". Logo, estes meus números significam pouco.

Também sou poetisa. Eu escrevo poesias sempre que elas pipocam no meu cérebro. Às vezes, na hora do almoço, dentro do ônibus lotado ou às duas da manhã, quando estou quase dormindo. Então, pego o que tiver mais próximo, papel ou celular, anoto, reviso, corrijo, salvo ou descarto. E há ocasiões em que não escrevo por meses. Não me preocupo com métricas, rimas ou temas. Só ponho para fora.

Em essência, sou uma aquariana que preza a liberdade de vida, de escolhas e se apaixona perdidamente, mesmo que por dois minutos, quase todos os dias; sou uma cientista que pesquisa lipídios em seres unicelulares, cuja fé precisa ser renovada todos os dias. Sou uma bruxa que não se esconde e tem uma cadela branca; uma bióloga que ama cobras e sapos, mas tem um jabuti-fêmea; uma bailarina do Oriente que adora rock e pop e é surda; uma surda que ouve com olhos e fala com as mãos, mas que também ouve com mãos e fala "pelos cotovelos". Uma pessoa simpática, desbocada, multitarefas, que é lerda de manhã, mal-humorada com fome, detesta pedir ajuda e não suporta gente relaxada ou desleixada. Mas, bem, continuemos.

Lá estava eu, quase bióloga, aspirante ao Mestrado, ex-noiva, finalizando o aprendizado artístico, quando acordei sem ouvir nada: surda total. E daí? 

As pessoas dizem verdadeiras pérolas sobre surdez; em especial, quando encontram uma "surda que fala". Não são todas de ouvintes desconhecidos; podem ser de amigos, de conhecidos de trabalho, de outros surdos (em especial os integrantes da comunidade surda), sem contar as minhas. Temos as repetitivas, como "Surda? Mas você fala!". A maioria é de curiosidades de uma pessoa com audição normal: "Como um surdo dança?", "Como você consegue transar?", "Para que você usa celular se é surda?". 

Isso ocorre porque ninguém tem muita noção do que se passa. Eles não te entendem, você não sabe se explicar. É impossível para alguém compreender a ausência de um sentido que sempre teve, faz parte da sua vida e do seu dia a dia. Até o perder. Aí, vira algo que não sabe se vai recuperar, precisa esquecer e se adaptar, e da qual sente saudades. Todos os dias.

Alguns dos sentimentos dessa perda não têm palavras suficientes. E, o mais importante, não tem alcance. Eu não pensava em escrever um livro sobre isso tudo. Por alguns anos, contentei-me em, via internet, extravasar sentimentos, questionar ações, rir das perguntas malucas que era e ainda sou obrigada a ler de lábios. Então, uma amiga, que adora me chamar de flor, me incentivou a escrever o livro sobre o que acontece aos diferentes tipos de pessoas com baixa acuidade auditiva, sobre todas essas dúvidas que passam despercebidas. A frase que me convenceu foi: "Você tem ideia de quantas pessoas poderia ajudar?"

No fundo, talvez eu achasse a ideia boa, já que ela me convenceu tão rápido. Era uma ideia legal pacas. No entanto, a realidade da época me esbofeteou: não era escritora, não tinha tempo para escrever, tinha um doutorado para terminar, nada de dinheiro para investir, público mínimo, nem sabia o que fazer. Então, a vida deu uma daquelas reviravoltas fatais: meu pai faleceu e as perspectivas mudaram.

Leitores se conquistam com boas histórias. E quem não gosta de uma fofoca? Essas informações querem encontrar todas as pessoas que nunca deram de cara com um surdo, ou mesmo um deficiente auditivo. Um surdo oralizado ou bilíngue, então, nem sabem que existe! Duvido que saibam o que significa a expressão "surdo oralizado".

Antes de realmente começar, quero esclarecer que a intenção deste livro é elucidar dúvidas, é apresentar a surdez do ponto de vista de alguém que não ouve, aprendeu a língua de sinais, não tem intenção de parar de falar e não faz parte da comunidade surda. Não quero rotular ou defender lados. Percebo e respeito diferenças em todos, porém não há como negar que podemos melhorar em muitos aspectos.

Obrigada por tudo. E desculpem por qualquer coisa.

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Pérolas da minha surdez (Degustação)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora