Prólogo

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 FAZIA DEZ ANOS QUE não vinha em Nova Esperança. Jurei que nunca mais colocaria os pés nessa cidade. Mas, aqui estava eu, em frente à antiga casa dos meus pais e com todas as lembranças vindas à tona tão rápido quanto o trem bala.

 Nada havia mudado. Talvez uma ou duas famílias vizinhas tinham se mudado, mas de resto tudo continuava igual. A casa onde nasci, as ruas por onde andava de bicicleta, a igreja no centro da cidade, o campinho onde meus amigos e eu costumávamos jogar bola todos os finais de semana, o pé de jabuticaba em frente o portão dos Salles. Tudo continuava lá.

 Longos dez malditos anos haviam passado e nada mudou, nem o responsável pela morte da minha família havia sido preso. Sequer fora identificado. O desgraçado estava por aí, gozando da vida e da minha cara.

 Eu estava com muita raiva.

 Eu estava morto por dentro.

 Meu coração parou de bater no instante que enterrei minha noiva e o nosso bebê.

 Desde então, não fui capaz de manter contato com mais ninguém.

 Inferno, eu não suportaria viver aqui sem Gretha! Não suportaria olhar nos olhos de sua mãe que eram tão parecidos com os dela.

 Não teria forças de viver em Nova Esperança, onde cada centímetro da cidade me faz lembrar dela. Dos momentos que tivemos e os momentos que planejamos ter.

 Eu não teria forças para viver onde tudo aconteceu. Eu não fui capaz de lidar com o fato de que a culpa foi minha. É minha culpa também Gretha ter ido tão jovem. Cheia de sonhos.

 Se eu não tivesse insistido para ela me acompanhar naquele jogo. Se não tivesse dispensado a carona de Heitor, talvez ela estivesse aqui.

 Se eu não cruzasse seu caminho, se eu não tivesse a namorado...

 Ela estaria viva. 

JOHAN - O QUE RESTOU DE MIMLeia esta história GRATUITAMENTE!