Pela manhã, ao acordar e ver ele deitado na minha cama morto de sono, eu levantei-me e fui para cozinha preparar o café. Enquanto eu colocava a água na cafeteira, lembrei de Garibaldi. Ele deve estar com fome também. Fui até o terraço e pus ração para ele, que rapidamente avançou sob a tigela. Voltei para a cozinha, lavei as minhas mãos e continuei no preparo do café. A cafeteira já fazia o processo de coação e eu resolvi sentar-se um pouco sob a mesa.
Não conseguirei esquecer dele.
Fiquei a pensar.
Não me refiro ao homem que dorme no meu quarto, mas ao homem que um dia conheci também por meio de um meio virtual. Um cara que poderia hoje estar naquele quarto e dividindo a minha vida com ele. Que poderia ser meu companheiro atualmente e compartilhasse não só a cama, mas os momentos especiais da vida. Ele faz-me falta. Traz-me saudades. Ele acreditava em nós. Ele tinha planos. Determinação...
E eu... Eu não consegui enxergar o quanto digno e verdadeiro ele era para mim. Ou pior que isso: eu não consegui enxergar o quanto ele me queria. O quanto ele me amava, aceitava-me. Se hoje estou sozinho aqui nesta casa, é porque eu não pensei. Eu meti os pés pelas mãos. Detonei com tudo. Fiz a maior merda da minha vida. Ele sabe que vacilei feio e não sei se hoje me perdoa por isso. Fiz o cara sair de outra cidade para a gente passar um fim de semana junto e eu abandonei-o num quarto de hotel por conta de uma atitude tão infantil. Naquela época, eu fui infantil. Tanto que às vezes, quando me lembro disso, eu fico com raiva de mim mesmo e acho-me um verdadeiro otário. Ele voltou para a cidade dele e eu chorei. Foi muito difícil.
Aquilo nunca saiu da cabeça.
Desperto-me dos pensamentos quando o rapaz me pergunta se estou bem. Respondo que sim e ele avisa que precisa ir. Ofereço o café e ele aceita gentilmente. Bebe, pega o dinheiro comigo e depois se despede com um abraço e sai porta afora. Bom, só me resta tirar o Garibaldi do terraço e trazê-lo para dentro novamente.
— E aí, quando você vem na minha casa? Estou a esperar a sua visita, hein?
— Pode deixar. Darei um jeitinho de ir aí com calma, ok? Só preciso organizar o meu tempo.
— E como está o Garibaldi, sua nova companhia?
— Está bem! Um pouco levado, mas vai bem. Queria te perguntar uma coisa.
— Diga! Sou toda ouvida.
— Você já se arrependeu amargamente de uma coisa tão boba?
— Desculpe, mas a que se refere? Eu conheço-te, rapaz. Se abre!
— Aquela história...
— Meu lindo, aceite um conselho: o que você fez ficou no passado. Viva o presente. E não importa se isso te marcou. Viva a sua vida e esqueça!
— Estou a tentar.
— Tente mesmo. Só tome cuidado para não repetir o mesmo erro com ninguém. O tempo passou e você mudou. Tu sabes disso. E ele às vezes nem lembra mais disso. Mas enfim, segue em frente!
Confesso que as palavras da minha amiga me fortaleceram um pouco. Eu tinha que desabafar e com certeza ela me ouviria.
San Diego. Aeroporto internacional.
— Para de drama. Mammys, não chora! Eu não abandonarei vocês.
— Meu filho, vou sentir a sua falta.
— Eu também vou sentir muito, mas preciso dar esse passo. Preciso ser feliz.
— Sei e entendo, entretanto, o coração aperta, né? Ver o meu filho morando longe é muito difícil.
— Oh, Mammys do meu coraçãozinho...
— Seja feliz, meu filho! Estarei aqui sempre.
Ele abraça-a fortemente e, no estado de emoção à flor da pele, caminha até o portão de embarque levando a pesada mala e acenando com a mão. Rafael tem um objetivo e uma pessoa à sua espera. Os dois conheceram-se por meio de um aplicativo.
No avião, ele olha para a foto do seu amor e suspira, acreditando que o cara é o tão esperado príncipe da sua vida.
E o avião decola. Rafael deixa a sua cidade lentamente para trás e começa a pensar numa vida nova. Eu nunca deixei de acreditar no amor, mas também estou ciente de que já levei muito na cara. As pessoas são complicadas demais. Quando acho que estou a acertar, sempre tem uma coisa que atrapalha ou não está a fluir legal. Existe uma entrega total de sentimentos, mas às vezes, um vacilo põe tudo a perder. E o meu pior vacilo faz-me pensar que um relacionamento deve ser levado muito a sério e que cada palavra dita com sinceridade alimenta as fibras do coração.
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Expectativas (Degustacao)
RomanceHigor, um surfista sonhador, vê sua vida virar de cabeça para baixo ao se apaixonar por Sávio, um garoto de programa. Entre encontros intensos, lembranças de um ex-amor e dilemas familiares, Higor se vê dividido entre razão, desejo e um sentimento q...
