Apresentações

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Como o homem infeliz que se considerava, Astor Casali não conseguia encontrar muitas coisas que trouxessem sabor à sua vida. Nem sempre havia sido daquela forma, claro, mas ele mal conseguia se lembrar da última vez em que se alegrara genuinamente por algum acontecimento.

Seu primeiro casamento. O nascimento de Marco. A primeira vez em que o filho o chamara de pai. O brilho nos olhos de Giane enquanto ela sorria de alguma coisa boba que ele nem se lembrava mais o que era. Todos aqueles preciosos momentos eram apenas fragmentos agora, como traços de uma pintura que perdia a vivacidade com o passar do tempo.

Astor suspirou, levando uma taça de vinho à boca. Aquela era a única coisa que ainda trazia algum deleite à sua vida: o produto das vinhas de San Marino. E era o que se permitia fazer agora: usufruir de sua pequena distração cotidiana enquanto era absorvido por suas reflexões. Não que uma festa fosse o melhor lugar para isso. Mas era melhor se perder em seus próprios pensamentos do que ouvir as reclamações de Savério Vicini.

"Você está me ouvindo, Astor?" O amigo perguntou. "Se você preza o acordo que fizemos há dezessete anos, acabaria com a palhaçada de o seu filho cortejar esta aproveitadora e o forçaria a se casar com Alessa agora mesmo!"

"Ainda está falando sobre isso, Savério?" Astor bufou, se voltando para o amigo. Ele bebericou do conteúdo da taça em suas mãos, e percebeu com desgosto que a irritação amargara o sabor do vinho.

"Então, você não vai mesmo voltar atrás?" Savério exclamou desapontado, mas em toda sua postura estava escrita intimidação. Astor o estudou com seus típicos olhos de águia. O velho amigo era um homem corpulento e, embora tivesse uma estatura elevada, não era mais alto do que ele. Astor ergueu o queixo para ele em desafio.

"Eu já disse que não, Savério." Sibilou. "A situação mudou. E você sabe melhor do que ninguém de que devo esse consentimento ao meu filho, não sabe?"

"Você também me deve, Astor. Muito mais." Savério grunhiu em resposta. "E nada no mundo poderá compensar os erros que sua família cometeu, mas nós ainda temos esse acordo. Além disso, a felicidade de minha filha é a coisa mais importante para mim. Não existe nenhum outro rapaz em San Marino capaz de fazê-la feliz e..."

"Mas vai ter que existir." Astor cortou-o, incisivo. "Alessa precisa se contentar em encontrar outro pretendente. Ela é jovem e bonita, e logo receberá muitas propostas. Então não se preocupe. Sua filha não corre o rico de ficar desmoralizada com o rompimento do noivado." Savério abriu a boca para protestar, mar Astor o interrompeu com um gesto. "Quanto a você, meu amigo, a sua parte no nosso acordo não será esquecida."

"Só que não da maneira como eu tinha imaginado." Savério murmurou sombriamente. "E aposto que as minhas recompensas não serão equivalentes às suas."

O senhor Casali cerrou os olhos na direção do senhor Vicini.

"Isso por acaso é uma ameaça, Savério? Por acaso está se esquecendo dos motivos que o levaram a fechar esse acordo comigo?" Savério recuou um passo, engolindo sonoramente. Até gotículas de suor brotaram de sua tez pálida. "Bom, parece-me que não."

Astor assentiu satisfeito, mas no fundo se censurava por ter feito aquilo. Sempre detestara a maneira pela qual seu pai conseguira as coisas, por meio de ameaças e manipulação. Porém aquela era a única maneira pela qual tinha aprendido a se defender e conquistar o que precisava. Além disso, era tarde demais para se impedir de fazer isso, não com Savério querendo interferir na felicidade do seu filho. Astor já tinha deixado que terceiros fizessem escolhas por ele uma vez, não, milhares de vezes durante sua vida inteira. Marco não precisava sofrer o mesmo.

Romance em San Marino - Livro II [Prévia]Where stories live. Discover now