"Então é verdade que você é um nobre, bonitão?" A cortesã disse enquanto se inclinava em sua direção, formando um biquinho com os lábios. "Um nobre rico e famoso?"

"Um nobre falido, você quer dizer. Pois o que é um homem sem propriedades?" Laurent deu de ombros. Aquilo era parcialmente verdade. Os revolucionários haviam confiscado todos os pertences de sua família, sim. Mas ninguém precisava saber o que ele ainda possuía. Se bem que, depois de algumas semanas e uma dezena de festinhas como aquela, as pessoas já deveriam estar suspeitando que ele não fosse tão pobre assim.

Hmm, isso é um problema. Hora de disfarçar.

"Eu já contei para vocês como foi que eu perdi o tesouro da minha família?" A cortesã acenou negativamente, fingindo estar ávida por uma história. "Muito bem. Quando eu estava no caminho para cá, um grupo de sans-culottes cercou minha carruagem e..."

Um grito cortante rompeu pela noite, interrompendo as palavras de Laurent. Um grito de mulher. Por um segundo, todas as conversas na taverna cessaram, e ele pôde jurar que ouviu, claro como o dia, o ruído seco de um soco. O estômago de Laurent embrulhou quando ouviu um choramingo em protesto.

"Ah, é aquela frega novamente." O dono da taverna murmurou com desprazer.

"Não insulte a minha classe assim, Claude." A cortesã disse com um muxoxo enquanto desenrolava o nó do lenço de Laurent. A música e o falatório voltaram com tudo, sobrepondo os gemidos que vinham do lado de fora. "Ela não passa de uma mendiga perturbada, isso sim. Alguém deveria expulsar aquela mulher daqui. Ela é péssima para os negócios."

"Negócios?" Laurent repetiu, distraído demais com os gritos que se misturavam à cantoria na saleta.

"Sim. Ela chegou aqui há alguns dias. Ninguém sabe o nome dela ou de onde veio. Ela parece ser meio perturbada, como Danielle disse. Não fala coisa com coisa. Mas alguns homens não ligam para isso, principalmente se podem conseguir o que querem de graça, se é que me entende."

"De graça?" Laurent se retesou, interpretando os gritos que ouvia de uma forma diferente agora. Ele praticamente conseguia sentir o pavor e a dor emanando deles. "Então... Monsieur, o que esses homens estão fazendo... é monstruosamente errado!"

Foi a vez de Claude dar de ombros.

"Não é da minha conta, desde que não afete as minhas garotas, não é, Danielle?" Claude deu uma tapinha no quadril da cortesã, que revirou os olhos.

"Eu já disse que está afetando! Olha só. Mais um cliente que se perde." Ela soltou um suspiro de lamento quando Laurent a tirou do colo e se levantou, rumando para fora da taverna.

A mulher se arrastou por entre a fresta de um prédio e outro. Não havia muitos esconderijos naquele lugar, onde geralmente as construções eram coladas umas nas outras, mas aquele beco era apertado o suficiente para que coubesse apenas ela ali. A mulher nem mesmo se importava que as frias paredes de pedra rasgassem sua pele enquanto se espremia por elas. Qualquer dor era ínfima se comparada a que seus agressores tinham lhe preparado.

Com a respiração entrecortada, a mulher levantou a mão ao rosto. A carne abaixo de seu olho direito pulsava de dor, e o sangue que escapava de seu nariz escorria livremente pelo seu queixo e pescoço, empapando o colarinho do trapo que vestia. Ela ainda tentava compreender o que havia acabado de acontecer, mas sua mente não funcionava mais como antes. Ela nem sabia por que estava ali, para princípio de conversa. Tinha a vaga noção de que deixara alguém em casa para fazer alguma coisa, mas a dor que martelava seu crânio e a parte inferior de seu corpo lhe impedia de raciocinar. Por que ela estava ali? Por que aqueles homens estavam fazendo aquilo com ela?

Romance em San Marino - Livro II [Prévia]Where stories live. Discover now