Prólogo

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Saint-Vincent, 1792

Era mais uma manhã de domingo maçante na taverna de Saint-Vincent, e não havia nenhuma perspectiva de que o restante do dia fosse melhor. Tudo era a mesma coisa, dia após dia e após dia. As mesmas nuvens carregadas que ameaçavam uma tempestade e pairavam sobre a cidade como um agouro, mas que nunca caíam. Os mesmos grupos de pastores conduzindo as preguiçosas vacas leiteiras para o pasto do vale. A mesma neve acumulada nos picos das pitorescas montanhas azuis, que se elevavam além da janela do quarto alugado de Laurent.

O rapaz suspirou exasperado enquanto caminhava de um lugar para o outro no cômodo minúsculo. A beleza bucólica do lugar poderia inspirar pensamentos elevados em outras pessoas, mas não nele. Por que tudo naquele lugar gritava prisão, prisão, prisão.

Não que fosse uma prisão de verdade. Laurent poderia estar numa situação pior, como muitos de seus amigos de Versalhes, que estavam ou trancados no fundo de uma masmorra fétida, ou com a cabeça rolando pelo cadafalso de uma das praças de Paris. Mas não. Ele fazia parte dos que tiveram sorte de fugir a tempo e estava ali, se aproveitando de sua sufocante liberdade nas fontes termais de Jean-Baptiste Perret.

Saint-Vincent. Há. Aquilo poderia muito bem ser um vilarejo quase no fim do mundo.

Poderia ser pior, lembrou a si mesmo, olhando além da janela embaçada pela poeira. Poderia ser muito pior.

Mas não era, graças à generosa e transportável fortuna de sua família, que sua mãe costurara tão diligentemente no forro de seu colete antes de escapar. Ela insistira que ele partisse na frente enquanto escondia o restante dos diamantes no corpete do vestido, prometendo que o encontraria logo depois. Laurent nunca fora um filho muito obediente, mas estava com tanto medo de ser pego pelos revolucionários que não protestou. Partiu antes de sua mãe e sabia que, enquanto vivesse, jamais se perdoaria por isso. Porque ela nunca foi ao seu encontro. Os revolucionários a pegaram primeiro.

E nunca mais teve notícias dela.

Laurent se afastou da janela num átimo. A cor daquelas montanhas não ajudava em nada. Elas lembravam demais os olhos de sua mãe — azuis. Foi quando ele a viu. Pelo canto do olho, Laurent observou a figura daquela fantasmagórica mulher, a mesma que tinha visto na noite anterior. Ela era pálida, imunda e magérrima, e repetia sua rotina de escavacar os detritos que o dono da taverna jogava fora depois do desjejum. Laurent franziu o cenho, enojado, quando a viu atacar um repolho vencido. Nem ali aqueles mortos de fome deixavam de turbar sua visão.

Assim que o sol se pôs, Laurent desceu para o jantar. Ainda era cedo, mas os dias eram curtos perto dos Alpes o que significava uma coisa: noites mais longas. E quanto mais longas, melhor a diversão. Laurent não gostava de se envolver com a gentinha do vale, mas se ele tinha um ponto fraco, com certeza era uma boa festa. E mulheres. Ah, com certeza mulheres. E aquela taverna tinha os dois. Então não foi nenhuma novidade para seus anfitriões quando Laurent subiu em cima da mesa no meio da noite e proclamou em alto e bom tom que a próxima rodada de bebidas era por sua conta.

"Ah, monsieur Laurent!" O dono da taverna, um sujeito atarracado e bonachão, disse enquanto lhe trazia uma taça de vinho e uma generosa fatia de queijo numa bandeja. "O Monsieur deveria nos dar o ar de sua graça mais vezes."

"Se eu soubesse que você tinha companhias tão agradáveis, com certeza sairia da minha toca com mais frequência." Laurent sorriu para a cortesã que estava sentada em seu colo. Ela não era bonita como as garotas com que estava acostumado, mas, na situação em que se encontrava, não podia se dar ao luxo de ser exigente.

Romance em San Marino - Livro II [Prévia]Where stories live. Discover now