Capítulo 1

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Dinamarca, século XIV

Querida mamãe,

Eu nunca quis me tornar uma prostituta...

Esse é o primeiro pensamento que tenho todos os dias ao me levantar e quando sou olhada com desprezo pelas damas com quem cruzou nos corredores do castelo.

Confesso que nada é tão ruim quanto transpassa minhas severas palavras. O destino me designou para isso é eu não fugi, ou recusei tal oferta.

Lembro-me do dia em que aconteceu como se fosse noite passada. Estava frio, assim como hoje, e eu dormia encolhida junto a uma pequena lareira, usando as brasas para aquecer o chão. Acordaria com o vestido coberto de fuligens, mas nem eu ou as irmãs do convento se importavam. A verdade é que me acolheram com medo de que se deixassem ao relento um bebê largado em sua porta seriam condenadas ao inferno. Imagino que a vida que tive lá e a de um escravo que trabalha armando a terra e recolhendo estrumes não seja muito diferente.

Naquela noite, fomos acordadas com fortes batidas na porta. O rei e a sua comitiva pediam abrigo para se proteger da noite gelada. Foi uma noite sombria para as freiras, pois os guardas pouco se importavam com os votos que elas haviam feito. Houve gritos, choro e sangue. Não a quantidade derramada em uma batalha, entretanto o suficiente para doer na alma, pois significou a perda da pureza de muitas.

Felizmente, ou não, eu não sofri como elas. O homem mais importante da comitiva, o rei, viu na plebeia órfã, mais do que cheiro de fumaça e fuligem. Ainda me pergunto o que brilhou em mim naquele dia, porque mal era possível ver meu rosto. Muitos dizem que tive sorte, talvez. Apenas posso afirmar que um estranho sonho na noite anterior me avisou e preparou para a chegada do rei.

Eu me ofereci, entreguei-me. O que pensei que não passaria de uma noite para quem não tinha nada a perder, acabou se tornando o restante da minha vida.

Pouco mais de um ano depois o vento gelado varre os campos e nos faz querer ficar sempre perto das lareiras. A neve fria cobre de branco todos os pátios do castelo e as pessoas aguardam ansiosas para que a primeira flor desabroche com a esperança da primavera.

Eu escrevo esta carta sentada em uma cadeira macia, usado um vestido caro, joias raras e coberta por uma macia capa de veludo. Desde àquela noite eu não passei mais frio, fome ou tive medo.

Ter me tornado cortesã do rei não foi uma tragédia.

Com amor,

Catherine.

Ela limpou o resíduo de tinta que ficara na mão com um pedaço de pano úmido e guardou a pena e a tinta em um pequeno baú de madeira.

Dobrou a carta, levantou-se e tirou do lugar uma das pedras que compunham a parede. Guardou lá a carta, junto com dezenas de outras que escrevera desde o dia em que havia aprendido o ofício. Colocou a pedra no lugar para que ninguém notasse que fazia dali um esconderijo.

Ajeitou a saia do vestido e se levantou.

Passou as mãos pelos cabelos ondulados e os jogou para frente antes de caminhar até a janela e debruçar-se nela. Catherine gostava de observar as estrelas no céu noturno, porém logo recuou quando o vento, que cortava a pele, adentrou sua capa.

Talvez com tanto frio o mais prudente fosse se aninhar perto da lareira quente.

- Lady, Catherine.

Ela se virou para o homem que apareceu na porta. O sujeito que era magro e alto, não passava de um criado do rei.

- O rei a solicita em seus aposentos.

A cortesã do rei ( Degustação)Leia esta história GRATUITAMENTE!