As voltas do umbigo

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de Diego Aguiar Vieira

A personalidade do artista, no começo um grito, ou uma cadência, ou uma maneira, e depois um fluido e uma radiante narrativa, acaba finalmente se clarificando fora da existência, despersonalizando-se por assim dizer.

James Joyce, Retrato do Artista Quando Jovem

Escreve, e encontra êxtase na escrita! Trabalha, e sê nosso leito no trabalho! Vibrai com o prazer de vida e da morte! Ah! tua morte será adorável: todo aquele que a vir ficará alegre. Tua morte será o selo da promessa do nosso antigo amor. Vem! eleva o teu coração e regozija! Nós somos um; nós somos nenhum.

Aleister Crowley, O Livro da Lei

cão se curva num U invertido, as serifas – que eram o rabo se escondendo entre as patas até atingir o chão e o focinho fuçando entre os espaços de paralelepípedo – fazendo assim, lembrar uma ferradura ou um Ω, que na sua fórmula minúscula (ω) representa a velocidade angular de um corpo rígido, ou seja, uma constante no tempo, exatamente como o cão, que ao contrário do seu dono, agora só existe para cavoucar entre as pedras quadrimodificadas dos paralelos, não notando nem a abelhinha que lhe circula a cabeça enquanto o dono continua ali, parado na minha porta, com cara de idiota me oferecendo pra receber cá em minha casa de meu avô esse rapazinho magriço que tosse-tosse sem parar e diz que tem interesse de falar comigo desde ontem, que foi quando chegou na cidade, mas que só não fez por respeito, que ele é neto de coveiros e diz entender de luto. O homem e o cão, que desperta de novo pro mundo e tenta abocanhar a abelha, vão embora e me deixam aqui com o rapaz, de nome Dario Vuturuá.

            Rio dizendo a ela que meu sobrenome é tupi-guarani. “Topo da montanha”, explico. Ela tem olhos bonitos e tristes de quem já chorou bastante e viveu mais, que é cheia de sorriso, também. Ela me convida pra entrar sem muita frescura nem desconfiança, felizmente sacando logo que eu não sou má pessoa. Primeiro eu explico a ela quem sou e como fui parar ali, depois me despeço do camarada-gente-boa que me levou até ali e ela me convida pra entrar e me faz sentar na cozinha, pra tomar um café e falar sobre o avô dela, algo que ela parece bem-bem disposta de fazer.

            Primeiro conto a ela rapidamente do trabalhão que tive pra descobrir que, afinal, o avô dela estava mesmo era em Macuco, que nunca tinha saído de lá, que o melhor jeito de sumir era ficar exatamente no lugar onde tem se estado o tempo todo. Conto que fui trabalhar e me formar como jornalista por causa foi do avô dela, que me inspirou com seus contos e depoimentos sempre de postura e compromisso muito rígidos com o hábito da pena. “Ou se sangra sobre a folha ou não se escreve uma linha que seja”, declarava assim, mais ou menos, o Antonio Izabel, avô da moça Lucinda – linda Lucinda, que o homem era mesmo dado à perfeição, que até na herança genética caprichou de escarranchar sobre a vózinha pra dar cá na netinha Linda lucinda.

            Invadiu-me uma vontade de te ver comendo capim pela raiz.

            Senti-me impelido a ajudar. O rapaz chegou todo esbaforido ao bar. Irmão de copo a gente reconhece logo, que a primeira coisa que fez ele foi é pedir uma dose de Velho Barreiro, o que não permite muito da gente identificar de onde vem o homem, que essa é também uma cachacinha bem genérica, se bem que boa, mas aqui nem é das mais consumidas, que eu mesmo bebo e vejo os outros beberem mais de outras, que são a Jararaca e Pirassununga 51, por exemplo, embora tenha quem se incline mais pra Jurubeba, como eu mesmo, mas esses são poucos. De modo que o moço não tinha sotaque, só esbaforimento e uma sede do cão, que bebeu a cachaça toda foi de uma talagada só, que eu vi. E eu tava falando do quê mermo?

            Tão pouca cidade se estendia para baixo na visão do alto que o cemitério servia, que Dario nem podia acreditar que não estivesse o povo todo ali a se despedir e lamentar a perda de Antonio Izabel. Meia dúzia de gato pingado, a filha, o marido dela, o coveiro esperando a hora de voltar pro sol e espalhar cal e nenhum padre ou benzedor nem nada disso que o morto queria mais era a paz do silêncio sem orações, e bem de acordo com seus desejos foi o que recebeu.

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