DOZE: INCAPACIDADES

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Sinceramente, não sei muito bem como fiz para sair do bordel sem ser pega. A adrenalina cuidou de mim até que eu estivesse na rua. Amaldiçoei terrivelmente a ideia de ter ido até ali de ônibus porque eu estava a mercê da sorte e da boa vontade para fugir de uma bala na cabeça. Mas, as vezes, a vida nos presenteia com sua boa vontade e tinha um táxi parado ali na esquina e eu entrei correndo, sem me importar com o homem que tinha um braço estendido para abrir a porta, o outro enrolado em uma prostituta.

- Vai! - Gritei para o motorista.

Ele não sabia para onde, mas acelerou. Olhei para trás e não vi nenhuma movimentação na porta do bordel. Respirei aliviada quando viramos a esquina e cortei o contato visual com a entrada do lugar. Só então percebi meu reflexo no vidro traseiro do táxi: eu ainda estava com a máscara estúpida. Retirei-a, envergonhada. O motorista reparou minha movimentação e riu, me encarando pelo retrovisor.

Ele era bonito. Não devia ter mais de 30 anos, seu nariz era a única coisa que destoava de seu rosto angelical, sendo um pouco maior do que o considerado belo, apenas para quebrar a perfeição. A pele escura contrastava com seus olhos castanho mel, brilhando em minha direção pelo espelho. Ele reparou o meu olhar e me deu uma piscadela, divertido.

Tentei me arrumar um pouco. Estava descabelada pela corrida, amarrotada por ter me vestido apressadamente. Tinha certeza que eu parecia ter dado uma rapidinha muito louca e isso piorava, já que tinha acabado de sair de um bordel.

- Então...? - O motorista começou.

- Por favor, não pergunte - implorei, querendo evitar toda e qualquer piadinha ou comentário sobre o meu estado deplorável.

- Devo ficar rodando pela cidade até acidentalmente passar na frente de onde você quer ir? - Perguntou.

Apertei meus olhos em vergonha completa. Claro. Ele queria saber para onde ir. Respirei fundo e passei o endereço da padaria que ficava a uma quadra de casa, por segurança - não que não confiasse em um motorista me deixar em casa, mas se descobrissem que ele tinha me levado, seria melhor que ele não soubesse o endereço certo.

O trajeto foi rápido e percebi o olhar dele enquanto encarava as ruas pela janela, tentando me acalmar. Tinha deixado Estela para trás, Estelinha, a princesa do meu coração. Tinha visto a menina crescer no play do prédio, jogado cartas com ela, acompanhado todo o seu histórico escolar. Houve uma época, logo quando havia me mudado para o prédio, que estava me interessando demais por ela para tentar conquistar seu pai, o bonitão cheio da grana que morava na cobertura. Como era viúvo, achei que poderia chegar a ele pela filha, mas jamais aconteceu. Mas eu e Estela... A gente simplesmente criou um laço. Já tinha estranhado seu sumiço, mas, na idade em que estava, começando a se rebelar, Estela tinha mencionado que o pai queria enviá-la para estudar na Europa. Depois que seu primo foi assassinado, um pouco antes da minha demissão, achei que ela tivesse sido enviada às pressas, sem poder se despedir. Seu pai me dissera, ainda há poucas horas, que ela estava viajando com a tia. Será que ele sabia que ela estava naquele confim de mundo e não queria me falar? Será que Lorena, sua tia, também era refém daqueles bandidos? Isso eu teria que descobrir.

O motorista estacionou na frente da padaria e eu lhe passei o pouco dinheiro que carregava comigo. Para a minha surpresa, ele negou.

- Por conta da casa, desta vez - disse, sorrindo e piscando um olho para mim. Empertiguei-me, ainda presa ao pensamento de que ele poderia achar que eu era uma prostituta e querer outro tipo de pagamento, o que se intensificou quando ele mexeu em sua calça jeans. Para minha surpresa, porém, ele apenas tirou um cartão de visita do bolso e me ofereceu. - Quando precisar, é só chamar. E querendo sair para... Sei lá... Beber alguma coisa.

[HIATUS] A Caçadora de CanalhasLeia esta história GRATUITAMENTE!