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Eu estava saindo de casa mais cedo dessa vez, simplesmente perdi o sono fiquei virando de um lado para o outro na cama sem conseguir fechar os olhos.

  Fui caminhando bem devagar em direção ao colégio, não estava com a menor pressa, andava em passos lentos aproveitando a brisa da manhã que batia no meu rosto, olhava cada detalhe de cada objeto que passava em volta. Sempre fui muito detalhista, gostava de observar as coisas a minha volta, eu acredito que tudo tem a sua beleza, sempre a algo para se apreciar mesmo nas coisas mais pequenas.

Passei direto pelo portão do colégio, não há mais nada de novo ou diferente para se observar,sempre os mesmos detalhes com as mesmas cores, com as mesmas pessoas.

  Estudei aqui a minha vida inteira não há nada que eu já não tenha visto. As pessoas começavam a chegar e logo a classe já tomava a forma com que eu estava acostumado, cheia e barulhenta.

Eu sento em uma das carteiras mais a frente por isso podia ver todos que entravam com clareza. As mesmas pessoas com as mesmas coisas, eu não estava prestando muita atenção até que ele entrou. Eu nunca tinha o visto antes. Era muito alto, tinhas os cabelos brancos claramente descoloridos, e uma pele muito clara. Passou de cabeça baixa claramente não queria chamar a mínima atenção. Passou despercebido pela multidão e se sentou no fundo na última carteira.

Passou tão fechado entre as pessoas que não pude reparar na cor dos seus olhos, ou no formato da sua boca, não pude sequer olha-lo direito. foi por isso que ele me deixou extremamente curioso.

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Quando o sinal do intervalo tocou o professor liberou a nossa saída e o garoto dos cabelos brancos foi o primeiro a passar pela porta, saiu às pressas da sala, parecia estar assustado com alguma coisa. Eu tentei segui-lo mas quando cheguei na porta ele já havia sumido.

  Eu não pude me conter fui até o professor antes dele sair da sala, precisava saber quem ele era:

- Professor, quem é o aluno novo? Aquele alto de cabelo branco?

-  Era um aluno na outra sala mas foi transferido para essa - ele terminava de juntar os livros-

-  No meio do ano? Mas porque exatamente?- as respostas pareciam me fazer ter mais perguntas-

- Bullying- respondeu com clareza- você não sabia? Ele é autista-

Aquela resposta me chocou um pouco, não consegui esconder a minha cara de surpresa,mas como? Ele era tão calmo como conseguiu se esconder tão bem?:

- Eu sei, é um pouco chocante, realmente não parece. Nem todos os alunos são avisados. Mas a condição dele é diferente. Diferente dos demais casos dessa síndrome ela não afetou o sistema motor nem o da fala, mas em relação a intenção social é bem complicado, Nunca ouviram ele falar ou sequer ficar com alguém no intervalo, está sempre sozinho e a sua difilculdade para entender e assimilar as coisas também é preocupante.-

Aquelas palavras clarearam os meus  pensamentos. Foi por isso que ele quis passar despercebido pelas pessoas, ele só estava assustado, provavelmente não gosta de multidões nem de barulho. Por um momento eu senti que podia entende-lo, podia sentir a agonia que ele estava passando...era por isso que era tão sozinho....:

- Desculpa por enche-lo de perguntas, Muito obrigado- me curvei em sinal de agradecimento-

- Não a de que - sorriu-

Sai da sala e comecei a andar pelos corredores. Fico me perguntando aonde ele estaria agora, obviamente não estaria dentro da escola, é muito barulhento e movimentado. O telhado era alto e silencioso mas os ventos eram muito fortes.

Andava sem rumo apenas perdido nos pensamentos, parei por um momento para olhar por uma das janelas já estava ficando sem ideias.

O clima estava bom nem quente nem frio, e o pouco vento que soprava as copas das árvores fazia com que elas soltassem apenas algumas folhas, o dia parecia passar tranqüilidade.

  Foi então que uma luz surgiu na minha na cabeça, para uma pessoas que odeia multidões e barulho que lugar melhor do que o lado de fora do pátio.

Foi uma descoberta um tanto babaca mas fiquei muito feliz com isso.

Fui correndo em direção ao pátio, desci as escadas rapidamente quase tropeçando em alguns degraus e assim que passei pela porta eu pude vê-lo.

  Estava sentado em um dos bancos mais afastados olhando o vento balançar as folhas das árvores.
Uma alegria imensa percorreu pelo meu corpo finalmente eu o achei, mesmo não o podendo ver com clareza meu coração já se estabiliza novamente.

Andei calmamente até a sua direção, a única coisa que eu não queria é que ele fugisse de mim, conforme as pessoas começaram a passar ele se encolheu mais e acabou olhando para o chão brincando com as próprias mãos.

  Eu sabia que ele não confiaria em mim de primeira, por isso assim que me aproximei sentei no chão virado de frente para ele, não cheguei muito perto, mantive uma distância apenas para que ele pudesse me ouvir.

Claramente ele estava estranhando a minha presença, se manteve fechado sem sequer falar algo:

- Oi- disse com um a voz calma abrindo um sorriso-

Ele se quer me olhou:

- Meu nome é Park Minhyuk, mas meus amigos me chamam de Rocky. Eu não sei bem porque, criaram esse apelido pra mim no jardim de infância e acabou pegando- terminava todas as frases com um sorriso, por algum motivo eu estava muito feliz- Você pode me chamar de Rocky também

Novamente não tive resposta, nem mesmo um olhar:

- Você gosta de ficar aqui fora né?, É bem mais calmo do que lá dentro

Ele não desviava o olhar das mãos. Eu comecei a ficar sem ideias, um curto silencio se fez no local, não sabia o que dizer. Até que uma Joaninha pousou no banco:

- Olha- consegui a pegar cuidadosamente na minha mão- Dizem que elas dão sorte

Ele pareceu um pouco mais interessado dessa vez, estiquei um pouco minha mão para mais perto dele. E ele aproximou um pouco o rosto para ver mais de perto.

  Os olhinhos dele seguiam os movimentos da Joaninha na minha mão, ele realmente estava curioso. Ela não ficou por muito tempo logo  mexeu as asinhas e saiu voando.

Mesmo seguindo a Joaninha com os olhos eu não pude ver direito o seu rosto e depois que ela foi embora ele só abaixou mais a cabeça.

Aquela altura eu já não sabia mais o que fazer.

Eu ia comentar alguma coisa quando o sinal tocou, ele se encolheu ainda mais, o som ficava mais baixo do lado de fora mas mesmo assim devia ser alto para ele. Ficou um tempo encolhido mas foi se soltando aos poucos:

- Posso ir com você?-

Ele assentiu com a cabeça. Eu fiquei supreso por não ter me ignorado.

Nós fomos andando até a sala, ele não deixava que eu o olhasse direito nem que me aproximasse muito, pelo menos deixou que eu o companhasse.

Eu não esperava outra reação, uma pessoa que não fala nem interage com ninguém há muito tempo não iria simplesmente agir normalmente.

Além do mais deve ter ficado desconfiado com a minha presença, "Um menino apareceu do nada e tentou conversar comigo" claro que ele ia achar que eu iria zoar com ele, já estava tão acostumado com isso que estranhou quando o trataram bem.

Ele não merece isso, não tem culpa de ser assim, como as pessoa não conseguem ver isso. O julgam sem mesmo conhece-lo, e ainda se aproveitam da sua situação para o fazer se sentir mais mal ainda. Eu não vou deixar que isso aconteça de novo, vou dar todo carinho e amor que ele sempre mereceu.

Afinal ele é uma pessoa muito boa, só viveu com as pessoas erradas esse tempo todo.

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