PLASMA SINGULAR

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— Era quase meia-noite quando ele dirigiu-se pela rua Principal em direção ao edifício Tour la Beb para se matar. O porteiro que trabalhava naquela noite declarou que ele parecia bastante tranquilo como de costume, mas que preferiu subir as escadas ao invés do elevador, apesar de morar no sexto andar. Ao chegar no apartamento, pelo que tudo indica, dirigiu-se direto para a janela e se jogou. Este é o sexto músico a suicidar em pouco mais de seis meses. Eu sou Hermes Novaes para o Mundo News.

Uma multidão logo se colocou próxima ao corpo, ou do que sobrou dele. Apesar da cena grotesca, as pessoas pareciam não mais do que curiosas, podia-se ver inclusive algumas conversando algum escárnio ao lado do cadáver, outras riam-se e aquelas mais dignas ficavam indiferentes e sem demora voltavam para suas casas preocupadas com a labutação do dia seguinte.

— E então? — Perguntou Hermes um tanto ansioso. — Como ficou?

— Bom, está aprovado — respondeu Aguiar com certo ar blasé. A Clarice está meio aborrecida contigo, já faz uma semana que você não dá noticia — a esta altura a expressão de indiferença já se transformara em requisição — mulher não aguenta essas coisas amigão.

Hermes passou a mão pelos olhos e suspirou. Justificou-se com voz queixosa — se ela soubesse como tem sido difícil tudo isso, o trabalho, essas mortes...

— Ela sabe, ela tem acompanhado o noticiário.

— Disso eu não tenho certeza. Se eu que estou cobrindo o caso não entendo, imagina quem vê tudo picadinho pela tevê. — Hermes fitou seu companheiro com um olhar interrogativo — Afinal, não é você que vive dizendo que a imprensa não transmite a realidade como deveria? — Prosseguiu, sem dar oportunidade de ouvir qualquer resposta — estou muito intrigado, sinto que existe algo bem maior relacionado a esses acontecimentos, há dias que não tenho uma noite tranquila de sono, mas irei vê-la hoje — disse dirigindo-se para o carro.

Aguiar, após guardar seu equipamento na parte de trás do veículo, acomodou-se no assento do passageiro, manteve-se calado respeitando o silêncio que se instalara entre ambos, não um silencio desconfortável, mas sim de maneira serena, um diálogo desprovido de palavras e em perfeita comunhão. Sucedera-lhe olhar uma última vez para o escarcéu ali formado enquanto puxava o cinto de segurança para enlaçar seu volumoso corpo, quando de repente, a surpresa! Aguiar não acreditava no que seus olhos viam e quase que num espasmo tateou o ombro do seu companheiro, tentando, em vão, puxá-lo pela orla da camisa sem que se virasse para ele e sem conseguir dizer uma palavra sequer, a voz lhe fugira tamanho o nervosismo causado por aquele vulto branco, apenas apontava, assombrado, balbuciando alguma palavra até que irrompera.

— É ela, Hermes! É ela!

Hermes relanceou os olhos atônitos, todas as suas teorias, conspiradas durante as noites mal-dormidas, por mais improváveis que fossem, vieram-lhe à mente como um turbilhão. No mesmo instante, o olhar da bela mulher pousou em seus olhos, como se convocados por estes, seu rosto tinha um estranho aspecto aliviado. Era a grande oportunidade de solucionar aquele mistério. A jovem ao perceber que seria abordada, levantou-se rapidamente para fugir de uma situação constrangedora. Ocultou-se na multidão, correndo o mais rápido possível. Hermes tentou acompanhá-la, mas foi parcialmente impedido por um carro que atravessava a rua naquele momento, correu uns três quarteirões, mas estava a ponto de perdê-la de vista quando num ato desesperado bradou.

— Estou com o livro!

Aquelas palavras ecoaram nos ouvidos da fugitiva como um encanto, paralisando o seu enfeitiçado. Diminuiu o ritmo das passadas até parar e voltar-se para trás. Hermes que a princípio a estava observando, esgotado, arqueado com as mãos apoiadas, cada qual a uma perna, logo acima do joelho, tomou a iniciativa de correr ao seu encontro. Ofegante e bastante suado tentou falar-lhe, todavia achou conveniente aguardar ainda um pouco para que pudesse recuperar o fôlego.

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