Capítulo 1 - Cena 1

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O sol atingiu seu ponto mais alto quando Kara avistou, com olhos aguçados, uma fina coluna de poeira se elevando a leste, em algum lugar passando o horizonte. A mulher estava sentada em uma cadeira posicionada na parte mais elevada de uma torre de pedra. Os pés estavam apoiados na amurada, os braços cruzados sobre o peito, o chapéu puxado por sobre os olhos, de forma a diminuir a luminosidade, mas ainda assim lhe dando visão de seus arredores.

Embora a posição fosse relaxada para qualquer um que a avistasse, podendo até ser confundida com alguém tirando um cochilo, Kara estava sempre atenta ao que se passava a sua volta. Os olhos de tigre vasculhavam o horizonte incessantemente sob a aba do chapéu, os ouvidos captavam qualquer coisa que se aproximasse de seu posto e seu corpo sentia qualquer vibração do terreno abaixo de si.

"In the deep, dark hills of eastern Kentucky/ That's the place where I trace my bloodline". Um pequeno rádio tocava, ao lado da cadeira da vigilante, entrecortando a canção com sons de papel sendo amassado.

Havia se passado dez dias desde o último ataque de aberrações vindas do deserto, por isso Kara estranhou a coluna de poeira no horizonte, já que os ataques haviam diminuído para um por mês desde que fora contratada para guardar a vila. A mulher ergueu a aba do chapéu para melhorar a visada. Decidindo que poderia esperar mais um pouco para a aproximação de quem quer que viesse pelo deserto, abaixou a aba novamente e se recostou ainda mais na cadeira.

"And it's there I read on a hillside gravestone/ You will never leave Harlan alive".

Kara havia sido contratada há quase um ano e, embora gostasse de considerar isso apenas como uma forma de ganhar a vida, estava começando a se apegar ao local. A vila de Madeiraleste era humilde, composta basicamente por casas baixas, construídas em madeira e cobertas com palha. As construções que chamavam mais atenção ao se avistar o local eram um edifício que servia de bar na parte de baixo e estalagem na parte de cima, e a torre de pedra sobre a qual Kara instalara seu posto de observação. Os mais antigos diziam que o lugar era uma espécie de fortificação no passado, e tudo que sobrara fora a torre. Rodeando a vila, agora, existiam paliçadas com pontas afiadas, montadas por sugestão de Kara. Não eram grande coisa, mas eram algo que ficava entre os moradores e qualquer um que quisesse invadir o local.

"Well my grandad's dad walked down Katahrin's Mountain".

O vento começou a soprar do leste para o oeste, fazendo bolas de poeira correrem pelas ruas da vila e trazendo consigo o som dos passos apressados daqueles deslocando a coluna de poeira. Para a guardiã, o grupo não devia ter mais do que uma dúzia de indivíduos se aproximando em velocidade relativamente baixa, o que indicava que deveriam estar todos a pé. Achou que já era hora de se levantar.

Com um movimento leve e ágil, a mulher saiu da cadeira e se postou de frente para o lugar de onde subia a coluna de poeira, já com a coronha do rifle apoiada no ombro e o cano apontado para o horizonte, de forma que o primeiro ser que aparecesse fosse logo abatido.

"And he asked Tillie Helton to be his bride/ He said, "Won't you walk with me out of the mouth of this holler/ Or we'll never leave Harlan alive".

Uma cabeça surgiu no horizonte e o dedo da moça, já pousado no gatilho, se moveu automaticamente, como um reflexo involuntário, puxando a pequena alavanca para traz. Mas, antes que a peça fosse pressionada até o fim de seu curso, Kara viu que aquele rosto não era o de uma das aberrações ou o de um integrante de um grupo de assaltantes, mas sim a face de um jovem, talvez com um pouco mais do que quinze anos de idade.

A guardiã ficou observando o garoto por alguns segundos, com o rifle ainda apontado para ele, ponderando se aquilo era algum tipo de armadilha ou chamarisco, mas logo percebeu que era uma perseguição.

E o menino era a presa.

Não era o rapaz quem estava levantando a coluna de poeira, mas sim a turba que vinha em seu encalço. Um grupo de dez aberrações o perseguia, coxeando e tropeçando devido as suas pernas atrofiadas. As criaturas tinham forma humanoide, mas os braços eram alongados demais, tortos demais. Alguns possuíam cabeças que mais pareciam prolongamentos de seus troncos, já outros possuíam pescoços compridos e cabeças pequenas. Uma característica comum em todas as criaturas era a pele - se é que aquilo que os revestia podia ser chamado assim - extremamente branca, salpicada aqui e ali por pústulas amareladas. Alguns possuíam presas afiadas, outros apenas apresentavam gengivas desdentadas e cobertas de saliva escura.

Kara, compreendendo a situação. Começou seu trabalho mortal, aquele que realizava com tanta maestria. O dedo pressionou o gatilho da arma até o fim de seu curso, liberando o cão e fazendo com que a ponta do percussor pudesse perfurar espoleta do cartucho, disparando assim o projétil através do cano raiado.

Um.

Dois.

Três.

Três disparos. Três aberrações abatidas.

O garoto, assustado com os rápidos tiros, interrompeu sua corrida por um breve instante, retomando o movimento ao perceber que as balas haviam sido atiradas contra as bestas em seu encalço, e não contra ele. As sete criaturas que ainda continuavam a perseguição ganharam terreno nesse pequeno intervalo, de forma que sua proximidade com o garoto atrapalhou a mira de Kara. Era hora de uma abordagem mais pessoal.

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