A maravilhosa vida de Alvina

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Alvina caminhou preguiçosamente por ruas sujas e becos fedorentos. A já conhecida sensação de aperto no estômago não diminui seu anseio por comida. Sentia-se se fraca, e a ferida na pata traseira atrapalhava sua caminhada, mas Alvina não se rendeu! Ela não era esse tipo de cadela. Seguiu rumo ao lanche desconhecido atraindo olhares por onde passava.

Sabia que estava suja e provavelmente fedendo, porém não se importava. Algumas pessoas, crianças em sua maioria, tentavam chamar sua atenção e ela abanava a cauda em resposta, na esperança de que uma delas lhe desse algo. Um homem avançou sobre Alvina, brandindo uma vassoura, quando esta parou para descansar em frente a uma padaria.

-PASSA! XÔ! - gritou o homem.

Na primeira vez que se deparou com este som, Alvina não deu muita atenção, contudo, após ouvir aquilo tantas vezes durante tanto tempo sendo ecoado por tantas pessoas diferentes, ela aprendeu o significado.

Para ela, às vezes aquilo significava deitar-se no chão e se recusar a sair. Outras vezes poderia significar um convite para brincar de pega-pega. Em alguns casos significava um xixi longo e descarado. Na verdade, para Alvina um "passa! Xô!" Poderia significar muita coisa, exceto dar meia volta e correr. Nesse caso em particular significou avançar para cima do autor do som com toda a ferocidade possível.

Saltou para cima do homem ignorando a dor na pata. Ela gostava de saltar e sabia que isso era muito útil, fosse para intimidar ou encantar as pessoas, sem falar que meio que era sua marca registrada. Alvina, a saltadora, era como ela era conhecida entre os cães de rua. Ela se orgulhava disso.

O sujeito se assustou, e Alvina aproveitou a brecha para latir tão alto quanto podia. O homem recuou aos tropeços, deixando a vassoura cair. Então ela avançou, ficando sobre o cabo caído, e se agachou nas patas dianteiras, eriçando os pelos das costas e rosnado alto, com os olhos fixos no cara.

Ela manteve a pose, com olhos arregalados e fixos no homem, sem ousar mover um pelo sequer, rosnando baixinho e permitindo que a saliva escorresse por entre seus dentes. O indivíduo se manteve imóvel, a tensão visível em todo o seu corpo. Quando fez menção de se mover, Alvina saltou novamente, latindo e espumando enlouquecidamente. O homem correu de volta para a padaria aos tropeços, sendo recebido pelas risadas dos fregueses. 

Alvina porém não esperou para colher os louros da vitória. Ela não se sentia vencedora de coisa alguma. Tudo que ganhara foi mais dor na pata, devido aos saltos. Seguiu, agora mancando sem rumo, antes que o homem voltasse com seu orgulho ferido e talvez algumas pedras.

A cadelinha alva andou até chegar em uma pracinha ensolarada. Sua barriga continuava vazia, seu pelo continuava sujo, e agora sua pata estava tão dolorida que ela não suportava tocar o chão. Resolveu descansar sob a sombra de um arbusto, e observar a paisagem enquanto lambia a ferida .

Alvina gostava de lugares abertos. Nunca gostou muito da cidade. Sentia-se minúscula e solitária na sombra dos arranha-céus, enquanto pessoas iam e vinham apresadas, as vezes falando sozinhas com a mão na altura do ouvido, sempre indo para algum lugar e sem nunca olhar nada que não estivesse imediatamente a sua frente.

Era sempre um alivio sair daquele mundo artificial de concreto quebradiço e poder pisar na terra, sentir a grama entre os dedos, ver as arvores e sentir o vento. Deitada sob a penumbra do arbusto, Alvina observou as pessoas.

Viu um homem andando afoito, com o rosto coberto de suor, usando terno e gravata, um celular numa mão e uma maleta na outra. De tempos em tempos ele guardava o celular no bolso, checava o relógio, então acelerava o passo e pegava o celular novamente. Ele fez isso até sumir de vista.

A medida que olhava, ela viu mães empurrando carrinhos de bebe, crianças e idosos, todos cabisbaixos, encarando telas de smartphones ou conferindo os relógios de maneira inquieta, sem nunca interagir entre si. Contemplou um jovem arrastando um dálmata pela coleira, enquanto o cachorro teimava em tentar farejar uma arvore. O garoto, que usava fones de ouvido, tentava digitar algo no telefone enquanto o animal tentava avançar na coleira.

Ela olhou aquilo se sentindo alheia a tudo. Não sabia dizer o que eram os celulares e os relógios, muito menos entendia ou se importava com a maneira que eles funcionavam, mas reconhecia uma coleira quando enxergava uma. Vendo a cena, Alvina não via diferença alguma entre os dois, humano e cachorro. Ambos eram escravos, cada um à sua própria maneira.

O cão era escravo do homem, trocando sua liberdade pelo sustento que o humano provinha, sendo não mais do que um brinquedo prestes a ser guardado na gaveta até que o dono resolva o que fazer com ele. Provavelmente passando a maior parte de sua vida trancado em um beco qualquer, ansiando pelo momento em que teria o pescoço acorrentado e seria arrastado pelo mundo sem ao menos conseguir relaciona-se com ele. E tudo isso por um afago e uma tigela de ração.

E o homem, não passava de um escravo do tempo, vivendo seus dias e noites temendo os movimentos do relógio. A cada batida uma nova ordem a ser cumprida, um novo objetivo a ser alcançado. De manhã o ponteiro o manda para o trabalho. A noite ele o manda ir dormir. Ele diz também as horas em que ele deve comer e o tempo certo para se banhar.

E assim o homem segue, refém do ponteiro, ansiando pela hora em que o relógio lhe concederá a liberdade. E da mesma forma, quando o relógio sai de cena, o tempo traz um novo ajudante para dizer ao cativo o que fazer: O calendário.

Ao contrário do ponteiro, o calendário manda suas ordens sem pressa, e geralmente seus decretos são bem mais relevantes. Ele diz ao homem quando votar, quando dirigir, quando namorar e quando descansar. Divide a vida do ser em fases, como se dissesse: "A partir deste ano você é um adulto! Comporte-se como tal!", e continua entregando suas determinações ao longo dos anos, até decidir que o sujeito esta idoso.

Alvina não passava de uma cadelinha de rua cujo pelo outrora branco se tornou amarelo de tão encardido. Ainda assim, de todos os seres naquela praça, apenas ela conhecia a autonomia que nenhum deles jamais imaginou. Era a única que entendia que liberdade era poder andar pelo mundo sem nada a temer, nada a perder, soberana de seu próprio tempo.

Dentre todas as criaturas ali presentes, Alvina sentiu que era a única que podia se dizer livre, e ela valorizava isso. Não trocaria sua independência por mimos ou prazeres supérfluos. Levava tudo que precisava consigo e nada mais.

Ergueu-se devagar e se espreguiçou, abanando a cauda para espantar as moscas. Seu estômago soltou um ronco alto, e ela viu um homem maltrapilho caminhar a esmo em sua direção, sem necessariamente nota-la, mastigando um pão distraidamente. Sua barriga roncou novamente e um pedaço de pão voou em sua direção. O homem maltrapilho seguiu seu caminho, deixando metade de sua refeição para trás e levando nada mais que um sorriso no rosto.

Alvina observou o homem se afastar e antes de matar sua fome, pensou:

"Enganei-me. Talvez eu não seja a única..."

E então voltou a viver sua maravilhosa vida.

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